Um inimigo do povo, de Henrik Ibsen

Talvez essa peça peque pela obviedade. Mas convém perguntar: como não ser óbvio em se tratando de personagens como o povo, os políticos e a imprensa? Figuras tão previsíveis quanto lamentáveis… O enredo não guarda surpresas: um homem honesto, um pensador livre, é esmagado pela tirania abominável da massa, essa “satânica e compacta maioria”, apoiada pelo conluio oportunista entre os abjetos poderosos e os vassalos da opinião pública — os temerosos da rejeição. Dr. Stockmann é, como todos os espíritos superiores desde que se entranharam no ocidente as ideias repugnantes do filósofo de Genebra, vítima de adversários tão numerosos que convém classificá-lo como absolutamente só. Não há neutros contra dr. Stockmann: há covardes coniventes pelo silêncio e covardes agressivos, que apedrejam-no camuflando-se “sob o manto da multidão”. Demasiado óbvio… A mensagem da obra, porém, é irretocável: o que se oponha à tirania vigente será caçado até a morte! Acaso o título da obra soasse melhor, em vez de “Um inimigo do povo”, como somente “O inimigo”. Mudo de ideia: talvez seja justamente a obviedade o brilho da peça: pois ela mostra o que, via de regra, sucede aos Stockmanns da vida real — exceção feita, é claro, ao quinto ato da peça, exageradamente otimista para alguém que a lê mais de um século após sua publicação…

O grande drama daquele cuja vida encerra um tormento existencial…

O grande drama daquele cuja vida encerra um tormento existencial é não haver para suas interrogações respostas válidas senão as que ele próprio valida. Como suportar? Adicione-se ceticismo à inquietação existencial, e tem-se o desespero certo. O cético tende a rejeitar as repostas possíveis para perguntas incômodas e não verificáveis: disso deriva seu infortúnio. Ele não pode aceitar o que diz a religião, o esoterismo, o misticismo; ele é programado para rechaçar aquilo que não experimentou. É possível abrir um livro de astrologia e encontrar respostas satisfatórias para tudo; é possível reconfortar-se na salvação cristã, no livramento budista — mas não para aquele que se recusa a acreditar. Toda inquietação existencial conduz a um dilema: credenciar pelo conforto aquilo que se recebe sem provas cabais, ou atirar-se em aflição sem limites. Alguns, como Pascal, adicionam à crença uma dose de raciocínio; outros parecem fadados à insatisfação.

Quem mira grandes empresas, tem de começar pelas pequenas

Quem mira grandes empresas, tem de começar pelas pequenas. Só assim poderá se preparar para aquilo que almeja. O planejar acarreta esta vantagem: evidencia, de antemão, as dificuldades, apontando também o caminho a se percorrer. Em literatura, faz bem o candidato a romancista especializando-se, primeiro, em construções menores, autônomas e que encerrem arcos dramáticos simplificados. Pequenas unidades, temática direta, singeleza estrutural. Na cabeça, a despretensão característica daquele que sabe-se aprendendo, que sabe-se no início de um longo processo. Assim chega, com o tempo, o traquejo no trabalho da velocidade, na representação de estados de alma diversos e na impressão de efeitos dramáticos potentes. Chega após muitos testes, muitas falhas e muitas lições. Para se preparar a grandes empresas, é prudente o esforço contínuo pela eliminação da sorte.

A leitura de místicos

Leio místicos com verdadeiro prazer. Místicos: homens que proclamam ver o que não vejo, que argumentam com aquilo que não posso comprovar. E prazer, é claro, por saber-me eliminando até o último vestígio a presunção ignorante que caracteriza o homem deste século responsável por moldar-me. Alegra-me constatar que possa haver outros com faculdades que não possuo, que não represento o modelo humano em plenitude de capacidades. Lê-los, a mim, é sempre uma lição de humildade.