Não seria justo comparar Hegel a Heidegger. Se há semelhanças na forma, limitam-se à forma: Heidegger é, em meus dias benevolentes, o modelo inigualável de estelionatário intelectual. Hegel nada tem de impostor: seu defeito, a dizer a verdade, é essa mania alemã de querer esmiuçar tudo até o último detalhe, essa incapacidade para a síntese potente. É uma pena que a Fenomenologia do espírito seja três vezes maior do que deveria ser: mas nela há, sem dúvida, muitas páginas dignas de atenção.
Divertidíssimo exercício mental
Vou pelos capítulos iniciais da Fenomenologia do espírito imaginando como Hegel deve ter-se divertido enquanto erigia seu monumento lógico. Realmente, deve ser um divertidíssimo exercício mental concatenar todos esses raciocínios. De minha parte, porém, se algum dia me propuser a construir prosa dessa maneira com o intuito de publicá-la sob o meu nome, comprometo-me desde já a não fazê-lo sem antes queimar tudo quanto já publiquei.
A convivência é uma senhora perversa
A convivência é uma senhora perversa que à força corrompe a moral e doutrina ao vício. Aquele que convive compra esta senhora usando a própria liberdade como moeda. Torna-se alguém pior, decerto. Nisto, a psicologia moderna é infalível: há um acordo convivial velado que implica ações as quais, se não cumpridas, são geradoras de desconforto individual e coletivo. A evolução moral exige um rompimento deste acordo, porque consiste numa reação ao instinto mundano. A virtude, embora praticada no mundo, só pode ser concebida na solidão.
Uma concepção superior da existência
Parece necessário ao homem que efetivamente sobrepuja as fraquezas da carne o amparar-se numa concepção superior da existência, isto é, acreditar — e é esta a palavra — em algo que transcenda a realidade concreta. Agindo assim, a simples razão aponta-lhe uma escala de valores que lhe deve servir de guia, e orientando-se nela é possível agir de praxe na contramão dos instintos — dando-lhes a importância devida.