Ah, se eu quisesse…

Ah, se eu quisesse fazer parte de um clube, de uma “escola”, de uma congregação! Após tomar conhecimento da existência de Antero, — quem eu poderia fantasiar, inclusive, como existência passada, visto o quanto tenho-me catequizado nestas filosofias, — eu me poderia facilmente incumbir de “continuar o que ele não terminou”, “resgatando” os seus “valores”, buscando-lhe os discípulos coevos a mim, etc., etc. Por isso, talvez, eu jamais pudesse ser Antero — alguém que martirizou-se cedendo às recaídas desse sentimento que, para uma mente incomum como a sua, deve ser exterminado em prol da paz.

Antero de Quental e Cesare Pavese

No diário de Cesare Pavese, o suicídio pode ser facilmente entrevisto posto que encontramos, primeiro, a ideia suicida que lhe afigura repetidamente como solução, e, segundo, oscilações temperamentais que lhe turvam a razão. Em Antero de Quental, o quadro é todo outro. Antero é, entre outras coisas, um estoico — e isso implica simultaneamente as capacidades de aceitar a realidade e de controlar a si mesmo. Em Antero, a despeito do conflito psicológico atrocíssimo, encontramos a razão tomando as rédeas do instinto, e disso decorre que o espírito, acostumado a oscilações agudas, também vê-se acostumado a convertê-las em impulsos profícuos através da meditação. Como, aos quarenta e nove anos, pôde Antero suicidar-se? Por um lado, parece-me óbvio estarmos todos sujeitos às suscetibilidades da raça; por outro, parece-me errôneo querer atribuir causas comuns a um homem incomum.

A flor de pétalas negras

Exercitemos a imaginação: um homem, após muito meditar sobre o suicídio, após ponderar cautelosamente todo o tormento de que padece, conclui-o absolutamente injustificável. Busca um amigo, luzindo-lhe tibiamente a esperança de que há algo que não esteja enxergando, de que suas conclusões incorrem em erro desconhecido. O amigo dispõe-se, e começa a lhe falar sobre o cantar dos passarinhos. É possível, para o infeliz, não julgá-lo um insulto? Suponhamos, agora, um monge retornando a pé de longo retiro de silêncio. Uma senhora aborda-o na rua e diz estar receosa de que chova e molhe suas roupas estendidas no varal. Há, novamente, um contrate tão acentuado que parece oferecer o riso como única resposta. Pois bem: deste banalíssimo contraste, nasce uma flor de pétalas negras chamada misantropia.

O velho debate

Diz Castilho:

Os versos de Filinto desagradam e martyrisam a qualquer ouvido, mesmo sem ser dos melindrosos; os de Camões commummente satisfazem; os de Bocage encantam; a estes, se alguma coisa se houvesse de reprehender seria a sua mesma perfeição excessivamente constante.

É verdade, é verdade: tecnicamente, Bocage não é menos que um mestre. Mas isso não empata a gargalhada diante desta conclusão que mais parece uma carta de amor. “Perfeição excessivamente constante”… Cabe-nos perguntar mais uma vez se o valor de uma composição poética resume-se à técnica ou se, porventura, configura-se a poesia como veículo expressivo de uma alma. Caso optemos por esta última hipótese, é forçoso concluir que a estirpe da alma que compõe versos, necessariamente, influencia o valor da composição. E que mais? Que uma alma nobre emprega-se em questões dignas de sua nobreza; expressa-as porque, para si, possuem elas um peso real e decisivo. Como chamar perfeita uma poesia corroída pelas paixões e preocupações mundanas? uma poesia incapaz de elevar-se a planos mais virtuosos? “Comumente satisfazem” os versos de Camões, enquanto os de Bocage “encantam”. Que conclusão!