A poesia de Antero de Quental

Ao diabo com essa sensação absurda! Posso, sim, apartar-me de Antero e julgá-lo. Vem a calhar a comparação com Bocage. Bocage é o artista pleno e isoladamente artista, o poeta tecnicamente impecável. O requinte de Bocage no trabalho dos versos o alça ao topo da língua portuguesa. Porém, não posso julgar Bocage superior a Antero. Digam quanto quiserem… Antero preenche sua arte com filosofia ou, melhor dizendo, a arte é-lhe a expressão poética do raciocínio crítico. Não se dá o mesmo em Bocage. As agonias, os tormentos, a visão altaneira e a inquietação metafísica transformados em versos por Antero exibem uma união entre forma e ideia que impressiona por parecer completa, satisfazendo as necessidades do espírito. Bocage, o grande embora somente poeta, não é capaz de raciocinar friamente, isolar a ideia; falta-lhe a veia do filósofo. Mas, antes disso, seus versos se ocupam de temática vistosamente ordinária. O resumo: a poesia de Antero de Quental, embora salpicada de falhas, é a expressão de um espírito superior.

Os sonetos completos, de Antero de Quental

Começaria assim esta nota: “Em Os sonetos completos, de Antero de Quental, pela primeira vez senti-me diante de composições portuguesas que me pareceram rebentos de mim mesmo”. Incrível! E sinto-me inapto a criticá-las, posto o fazê-lo, de uma estranha maneira, parece-me fazer a crítica de minhas próprias composições. Por quê? Meu primeiro impulso é pensar: são os poemas de Antero lugares-comuns? Excetue-se ali algo de sua juventude, de jeito nenhum! Como, então, sinto-me expresso por inúmeros de seus versos? Esteticamente, penso, há notável diferença entre nossas composições: o discurso, sobretudo, sai-nos de forma distinta. E então? Concluo, após muito refletir, que os tormentos de Antero são os meus. O conflito psicológico de Antero é idêntico ao que experimento. A expressão de Antero é o corolário das sendas que percorri. E mesmo o olhar de Antero ante a existência parece guardar enorme semelhança com o meu. Incrível! E pensar que Antero, no fim de tudo… deixemos isso de lado.

Desgostos e maturidade

Poder-se-ia definir maturidade como a postura daquele que sofreu desgostos o bastante para perder a esperança infantil característica dos imaturos, não houvesse aí a noção implícita de que sucessivos desgostos acabam, hora ou outra, frutificando em maturidade. É impressionante o contraste: há naturezas que, como o vinho, são refinadas com o tempo; já outras… quão mal o tempo lhes faz! À medida que correm os anos, aumenta-se progressivamente o ridículo de cair em puerilidades; e há quem jamais as supere, senão tombando de mais altos penhascos, e a cada queda reforçando-lhe as convicções! São casos tristes, dignos de compaixão sincera, sobretudo porque a vida, de quem não lhe assimila as lições, não costuma se compadecer.

As emissárias do bom senso

Tão abundantes e tão antigas são as narrativas que expõem minuciosamente a perversa e regular opressão operada pela maioria contra indivíduos isolados, desamparados, que padecem como mártires jamais desagravados pela história, que parece absurdo, ainda hoje, as maiorias serem tidas como emissárias do bom senso. Desta mentira clamorosa, seria de se esperar que os homens se livrassem, ainda que por necessidade ou pudor. Curiosamente, o contrassenso persiste e se fortalece. Como justificá-lo? Explica, Carlyle! como conciliá-lo com a tua teoria de sepultamento de mentiras? O que parece é que, neste mundo, a injustiça não faz senão trocar de máscara ocasionalmente.