Dizem os teosofistas, para meu divertimento, que é dada ao homem a liberdade de escolher o seu local de nascimento. Minha mente voa… Pouco interessa a veracidade desta curiosa revelação: o divertido é raciocinar sobre a hipótese. Imagino-me, diante de uma entidade suprema, apontando, no mapa do mundo, a cidade em que nasci. Infinitas opções e, por volição simples, escolho uma cidade do interior de São Paulo — cidade de que não me resta uma única e solitária lembrança. Quero crer que a entidade tenha me apresentado outras bandas, exposto desde seus aspectos geográficos até culturais e que, mesmo assim, eu tenha escolhido nascer onde nasci. A pergunta seguinte é: por quê? Parece-me razoável uma única justificativa: meu orgulho — e corrijam-me os teósofos se são possíveis manifestações do orgulho nestas esferas da existência — deve ter pensado em algo como: “provarei ser capaz de desenvolver-me num ambiente hostil à minha natureza”. Muito bem! Será mesmo que, entre todas as possibilidades, eu e minha mente analítica, após meditação longa e cautelosa, tenhamos julgado esta a mais interessante? Ou talvez, se é vero o que dizem os teósofos de nascermos e renascermos numerosas vezes, eu tenha enjoado de praias paradisíacas, arquiteturas variadas, altos IDHs e todo o resto? Não, não, “enjoar”, não… Que concluir?
Reformas ortográficas
Refletindo superficialmente sobre as reformas ortográficas pelas quais passou a língua portuguesa, a impressão que fica é que a língua tornou-se mais feia, pobre, e por vezes confusa. É sempre uma lástima para qualquer idioma quando “autoridades” sentam-se para regulamentá-lo. É como se o trabalho dos gramáticos, que registram progressivamente as mutações pelas quais a língua é submetida, não tivesse valor algum. Bruscamente, rompe-se o padrão cuja evolução é obra de séculos: risca-se o tempo, e se estabelece um “certo” e um “errado”, com a ingênua esperança de que uma língua viva pode ser domada por convenções… O resultado é algo que soa antinatural. O consolo é saber que, embora abundante em defeitos, o português é forte o suficiente para passar por cima destes delírios e contrassensos…
O futuro é uma hipótese
O futuro é uma hipótese; concretamente, não existe e nunca existirá. Entendê-lo é orientar-se. As possibilidades abrem-se ao homem num lapso fugaz e exigem, continuamente, ação imediata para se concretizarem, até o dia em que se fecham todas e para sempre. Medita, e aponta o pensamento o melhor caminho: em seguida, é agir ou anular-se na inutilidade.
O estado de espírito que favorece as boas manifestações…
O estado de espírito que favorece as boas manifestações não se alcança num arrebatamento súbito, é uma construção longa, diária e frágil, extremamente frágil… Um deslize, e volta-se ao ponto inicial. Após longo esforço, torna-se corriqueiro no cotidiano transformado o que antes parecia impossível. Tropeçando, atirando-se de volta à mesquinha realidade anterior, o que se experimenta é uma aflição que pesa sobre as costas e esmaga o rosto contra o chão…