É realmente impressionante como os anos, que não parecem nada, que passam imperceptivelmente, desfiguram a realidade até um ponto em que não sobra um único resquício do que um dia foi. Tão próximos um século do outro, e por vezes díspares a ponto de não se reconhecerem. Será tomado de espanto aquele que fizer uma análise minuciosa dos costumes de épocas passadas, em medida idêntica à que resultaria se alguém do passado pudesse vislumbrar o futuro. Em ambos os casos, um misto de estranhamento, repulsa, incompreensão e assombro. Assombro porque, em teoria, a espécie humana sempre foi constituída de homens. Porém, para a sociologia, é possível descrever homens de diferentes tempos como espécies distintas.
A maestria numa ocupação é condicionada ao ponto de partida
Nietzsche disse, em algum lugar, que a maestria numa ocupação é condicionada ao ponto de partida do indivíduo, mais especificamente, a quanto este recebe de legado. Portanto ao filho desejoso de eminência, o recomendado é seguir-lhe os passos do pai. Há nisto uma boa dose de verdade; mas, como sempre, as exceções são mais curiosas que a regra. Que maravilhoso senso de ironia do destino em colocando um Nietzsche como filho de um pastor protestante! e um Cioran, a crescer filho de um padre! Destes e de outros exemplos notamos que a eminência, além do aprimoramento do legado, também aceita a ruptura violenta como ponto de partida.
Para ser normal…
Para ser normal, absolutamente normal, é preciso, em primeiro lugar, frequentar um psicólogo. Só ele é capaz de colocar uma alma perdida no caminho da normalidade. Em seguida, é preciso viver de forma a empregar, no mínimo, metade do tempo útil trabalhando. Diariamente, é necessário expor-se às radiações salutares de uma televisão. Os remédios para ansiedade, depressão e colesterol devem complementar uma dieta centrada em produtos industrializados. As injustiças sociais devem inspirar a mais profunda indignação e o Estado deve ser obedecido independentemente das circunstâncias. Ao lado do travesseiro, um livro de autoajuda. E a mente a repetir o mantra: “Eu sou capaz”.
A psicologia acabou se afundando…
Embora possam estar relacionadas, são coisas completamente diferentes a antipatia pela socialização e a inabilidade social. Introversão não implica, necessariamente, timidez ou inibição. Neste erro caem muitos psicólogos, e os que não caem, erram julgando a primeira um transtorno de personalidade — logo, algo que deve ser corrigido. A psicologia acabou se afundando por não ter definido, desde o princípio, o escopo de sua atuação. Entregou-se aos encantos da novidade e invadiu outros terrenos — terrenos cuja complexidade extrapola-lhe os meios de análise. Procedeu assim classificando padrões comportamentais como se fossem sempre resultado de uma fórmula estúpida, como se o homem não tivesse capacidade de julgar e escolher. Pior do que isso: sem que percebesse, estabeleceu uma escala de valores supostamente universal a ser utilizada como referência para aquilo que é ou não é normal. Destarte, erigiu um modelo humano desprovido de individualidade — um modelo, portanto, extremamente superficial.