Quando a certeza não é possível

Quando a certeza não é possível ou, acaso, seja questão de índole, é preciso que o homem tenha coragem o suficiente para agir orientado por indícios. Um indício envolto em espessa penumbra tem de sê-lo satisfatório, é mister que ele se apegue ao pouco que tem — do contrário é trancar-se na inércia. Encontrar, pois, o indício! Encontrá-lo e agarrá-lo firmemente! Seguir-lhe o caminho sugerido e amparar-se na possibilidade — porque é esta, sem dúvida, melhor do que o nada.

 

Por mais irracional e desconfortável que seja…

Por mais irracional e desconfortável que seja, é forçoso, para aquele que vê, admitir que há coincidências tão acachapantes, tão incrivelmente expressivas, — embora por vezes de significado obscuro, — que o negá-las ou sequer calar-se sobre elas parece indigno do apreço à honestidade. “Coincidência” é termo incorreto, “acaso” uma justificativa que afronta a inteligência capaz de uma matemática simples, que logo taxa-o de absurdo inadmissível, o maior dos absurdos possíveis. Disto, lamentavelmente não se tira conclusões seguras, não se extrai certezas que esclarecem cabalmente o mistério, mas parece mais nobre dizer o que é visto com as palavras concebíveis em vez de negar o patente por incapacidade de expressão.

A multiplicidade

Em arte, o traço que talvez mais impressione e mais caracterize verdadeiros gênios é a multiplicidade. Se tomamos de exemplo um Fernando Pessoa ou um Shakespeare e lhes analisamos a obra, parece-nos incrível que manifestações tão variadas tenham saído de uma mesma mente. Quer dizer: se, enquanto lemos, nos atentamos não para a obra, mas para a mente que a gerou, buscando compreender-lhe as motivações e os intentos, ficamos impressionados ao notar como comporta oscilações por vezes antagônicas, e como logra expressá-las límpidas e potentes. É como se, confrontando-a com uma mente comum, notássemos que, de um lado, há um caráter vicioso e tíbio, e, de outro, há uma potencialidade criativa sem limites.

Linhas escritas são o registro no tempo de impressões duradouras ou não

A leitura atenta de vários volumes em sequência de Mário Ferreira dos Santos impactou-me tão fortemente que tive o impulso de revisar-me todas as notas a procurar bobagens. Contudo, é impulso que não posso permitir. Revisar-me o passado é destruir o que fui, apagar os vestígios de uma possível evolução. Linhas escritas são o registro no tempo de impressões duradouras ou não: mas são, todavia, as evidências da trajetória percorrida. Suprimir o que fui é deturpar o que sou: ação justificável não na mente de obsessivos pela coerência perfeita, mas sim na de impostores e canalhas.