Talvez tenha sido Mozart o artista mais genuíno e mais genial

Entre todos, talvez tenha sido Mozart o artista mais genuíno e mais genial. É absolutamente impressionante constatar a vastidão e a qualidade de sua obra, e se consideramos suas modestas três décadas e meia de vida… Parece não haver quem se lhe aproxime. Parece inexplicável e impossível uma obra tão vasta, tão bela, tão tocante e tão potente. Um artista de manifestações inesgotáveis e sempre excelsas: cativa o Mozart das sonatas, encanta o Mozart dos concertos, espanta o inigualável Mozart do Réquiem. Como isso? como de um único homem? No caso de Mozart, haver as perguntas mais do que satisfaz…

Uma orquestra de ponta é quase que uma salvação cultural

É indescritível a sensação de ver, em cores, uma orquestra de primeira linha a tocar. Digo ver e já não sei se deveria ter dito sentir. O dispêndio de cifras incríveis para mantê-la justifica-se por ser uma orquestra de ponta, a depender de onde esteja inserida, quase que uma salvação cultural. Sentindo-a conclui-se: há esperança. Presenciar, simultaneamente, dezenas de homens que lhes dedicam a existência à arte; que, após longos anos de estudo e prática intensa, treinam, treinam e treinam para, numa curtíssima apresentação, transmitir a quem a vê o gênio de espíritos que atravessaram os séculos, espíritos nobres e imortais. Notar a sutileza de movimentos sincrônicos, precisos e carregados de sentimento; calar-se e deixar-se guiar por uma melodia sublime; experimentar um contato direto com algo belo: uma experiência desta natureza eleva moralmente o público que a vivencia.

Liberdade das próprias ideias

Há vinte e seis séculos atrás, já notava Lao-tsé que a liberdade das próprias ideias é a marca do “homem moderado”, como diz minha tradução inglesa. Poderíamos alterar este adjetivo para prudente, sábio, superior. Se há um traço que distingue naturezas baixas, imaturas e que não evoluem, é o apego àquilo que pensam e acreditam. Deste apego, — destas correntes, — que não pode ser interpretado senão como manifestação da vaidade e de uma estúpida presunção, correm os dias e o tempo não faz aprimorar o ser engessado, o ser hostil a tudo quanto lhe é novo e diferente. Moderação, se fôssemos defini-la na acepção utilizada neste trecho do Tao Te Ching, diríamos ser a capacidade de ceder e aceitar o diferente — virtude inimaginável para o presumido que se reputa o centro do universo.

O leitor ideal

Reviso-me as notas e sorrio de minhas irritações. A verdade é que me considero, modéstia à parte, o leitor ideal. Quando abro um livro, a última coisa que desejo é irritar-me com o autor. Concedo-lhe liberdade total para dizer o que quiser, criar do absurdo ao ridículo, romper todas as barreiras morais e mais quanto achar que deva para expressar o que tenciona. O que não tenho — e orgulho-me disso — é uma cartilha para exigi-la de quem leio. Escolho, conscientemente, leituras que aparentam contrárias ao que aparento pensar. E mesmo assim, mesmo com essa abertura quase ilimitada, acabo sempre encontrando quem me atice os nervos…