É curioso notar como grande parte das “descobertas” modernas nada tem de descobertas. No terreno da psicologia, é dificílimo encontrar algo relevante que já não esteja esboçado — e amiúde melhor esboçado — nas obras de Doistoiévski e Nietzsche, para não mencionar os textos orientais. Mas o “desafio do urso polar” de Dostoiévski, ou a constatação de Nietzsche de que “as melhores ideias surgem ao caminhar”, em vez de serem imediatamente captadas pela intuição, tiveram de esperar um século para que fossem devidamente validadas por experimentações ociosas. A miséria deste tempo é exigir que tudo contenha-lhe o selo distintivo; do contrário, não tem valor. Assim parecem os esforços direcionados mais a afagar uma vaidade coletiva que a ampliar a extensão de quanto se pode chamar conhecimento do homem.
As melhores decisões surgem após meditação longa…
As melhores decisões surgem após meditação longa, embora disforme, que concentra-se lentamente até um ponto em que extravasa com violência num impulso que, por ação volitiva, tem a vazão permitida de imediato: concretiza-se neste impulso, e perdura frutificando. A intuição, tomada no sentido junguiano, quando desenvolvida é capaz de manifestar-se carregada de uma certeza que sobrepuja o raciocínio. É o clarão de uma faculdade preciosa. Contrariá-la, nestes casos, é malbaratá-la. Por isso é justa a paciência em decisões importantes — mas, por vezes, o mais proveitoso é ter coragem para seguir a própria intuição.
O especialista ocidental
Releio os sutras de Patanjali, desta vez comentados por um místico indiano. Que diferença! Que abismo separa-o do mestre doutor especialista em metaética e filosofia da linguagem! Faltam-me palavras… Os concisos comentários do místico não vêm senão visando facilitar a compreensão prática dos sutras; objetivam, sumariamente, descomplicar quanto lhes possa haver de ambiguidade. O confronto com o senhor doutor é de dar dó… Parece o especialista ocidental meter-se num distanciamento intelectual que flerta com a burrice. Isola-se daquilo que analisa, traça infinitas comparações, como almejando o conhecimento perfeito da etimologia das palavras estudadas, mas indiferente a captar o que elas representam. Perde-se numa subjetividade irracional, porque é simplesmente absurdo ceifar de um estudo sério o elo com a realidade. É o cientista conhecedor dos detalhes técnicos de um experimento cuja finalidade ignora, o especialista em meditação que jamais meditou. As trezentas páginas de comentários de meu Yoga sutra ensinam menos sobre ioga do que o resumo de uma linha feito por Crowley: “Sit still. Stop thinking. Shut up. Get out!” — resumo este que, aposto o meu braço direito, jamais passou pela cabeça do mestre doutor.
Neurociência e arte
Feliz surpresa o meu descobrimento das conclusões a que tem chegado a neurociência através da encefalografia. Todas elas corroboram quanto, pela experiência, tenho definido como metodologia de trabalho ideal. E há muito, muito para se conjeturar… Dizem-nos os neurocientistas que, no estado de atividade normal do cérebro, quando desperto, há predominância na emissão de ondas denominadas beta, assim como na execução de atividades que exigem alta concentração. Em contrapartida, em estado de relaxamento, reflexivo ou meditativo, pode haver no cérebro predominância na emissão de ondas de menor frequência, as chamadas alfa. O mais interessante — embora não seja novidade — é terem notado os neurocientistas uma relação entre emissão de ondas alfa e diversas manifestações cerebrais, como a criatividade. Essas observações vêm em amparo da seguinte teoria: na arte, há dois momentos distintos do processo criativo: o da ideação e o da realização. É presumível que, realizando a obra, predomine no cérebro do artista a emissão de ondas beta, posto esteja fortemente concentrado nos detalhes daquilo que está a criar. Não é, portanto, o momento em que brilharão as melhores ideias para a obra, se estão corretas as observações da neurociência. Destarte, é preciso que o artista defina um momento distinto para concebê-las ou, noutras palavras, que distribua em etapas o esforço cerebral, a fim de explorá-lo de forma mais inteligente. Não disseram os neurocientistas o que repito: a criatividade não funciona, no cérebro, como a execução de tarefas precisas; isso quer dizer que não se pode obter resultados imediatos e com a mesma regularidade ao estimulá-la. Mas se pode, certamente, estimulá-la de forma metódica, deixando-a trabalhar em seu tempo. É por isso que ao artista cuja rotina encerra regularmente estados semimeditativos, explosões criativas estão muito distantes de manifestações de Deus.