Tornamos ao estilo de Dostoiévski. Para vários, prolixo, defeituoso — e assim concluem que sua obra carece de técnica. Crianças… A imprecisão deste veredito deriva-lhe da superficialidade: considera, somente, aspectos externos. O que se percebe em Dostoiévski é que, estruturalmente, suas narrativas encerram arcos dramáticos muitíssimo bem montados — e por esse motivo, mas citando outro, disse Nabokov que Dostoiévski teria sido um grande dramaturgo. Aprofundando-lhe nas narrativas, isto é, analisando-lhe individualmente as personagens, percebemos que elas, também, encerram arcos e se transformam ao longo da história, acompanhando o encadeamento de fatos que conduzirá ao desfecho e dará sentido para a obra. A violência com que os sentimentos são experimentados e a impressão de agravamento contínuo que ficamos quando percorremos páginas de Dostoiévski jamais ocorreria se Dostoiésvki não conduzisse a narrativa inteligentemente, cumprindo um planejamento estrutural metódico concebido justamente para realçar e dramatizar os elementos da história. Dizer que Dostoiévski carece de técnica é afirmar, não temendo o ridículo, que saíram por sorte várias das obras mais comoventes da literatura universal.
Não há controle sobre o meio
O verdadeiro artista, compreendendo-lhe a vocação e o papel nesta terra, tem de aceitar que pouco importa quanto lhe ocorra em vida, de quais tormentos padeça, por quais caminhos erre. O que importa é o proveito que tira da matéria-prima que lhe é oferecida para modelá-la e convertê-la em arte, reagindo à realidade que o circunda e às condições que lhe são impostas. Não há controle sobre o meio; há, porém, sobre as respostas — que representam, em suma, a individualidade do artista.
A lição de Dostoiévski
Se há algo instrutivo em Dostoiévski, que deveria ser aprendido por todo artista, é o fato de que o cristão Dostoiévski, quando coloca palavras na boca de um niilista, deixa de existir. Isso é arte; é pré-requisito para uma obra que se tencione convincente. Se tomamos isoladamente Os demônios, por exemplo, essa obra magnífica em que o niilismo talvez nunca se tenha expressado de forma tão eloquente e multifacetada, o cristão Dostoiévski aparece tão acanhado, em meio a vozes múltiplas e fortíssimas, que aparenta quase inexistente. É por isso que muitos taxaram Dostoiévski, o cristão, de niilista. E é por isso que sua obra, suscetível de interpretações intermináveis, é um dos tesouros mais autênticos da literatura universal.
Variações estéticas…
No primeiro volume de Casos, os rasgos selvagens, a dramaticidade e a violência beiram o absurdo. Talvez, terei eu feito uma homenagem de estilo àquele de quem herdei o formato. Já no segundo volume, retirei o sangue, afrouxei os arcos dramáticos e, estruturalmente, experimentei escrever quase sempre sem amarras, mantendo porém o formato, a ver se as narrativas sairiam mais naturais. O resultado? Vacilo em concluir… Certamente, foram narrativas menos impactantes; mas, talvez, mais espontâneas e sinceras.