Talvez ainda não tenha sido escrita…

Talvez ainda não tenha sido escrita a obra que documenta a deterioração nas relações cotidianas em razão da justificável aversão às empresas, que cristaliza-se num reflexo repelente a qualquer tipo de abordagem inicial. O homem que, hoje, possuir um número de celular, e caminhar diariamente por avenidas comerciais metropolitanas, terá de desenvolver um escudo antiempresas; do contrário, passará boa parte do dia lhes dando atenção. E como estas, perspicazes, estão sempre desenvolvendo novos meios de “humanizar” o assédio, o escudo acaba, cedo ou tarde, voltando-se contra pessoas comuns. O fenômeno está aí, suas vítimas pululam, e mereceria louros aquele que justificasse objetivamente a resultante falta de educação.

A crítica literária sofre da impossibilidade…

A crítica literária sofre da impossibilidade de objetivar totalmente os critérios de julgamento das obras, ficando os pareceres, assim, sempre mais ou menos fundados em preferências pessoais. Até aí, nenhum problema. Este começa quando a crítica se vê obrigada a apresentar-se sempre como objetiva, sendo notório que frequentemente o não é. Assim que se dão muitas polêmicas desnecessárias, talvez evitáveis se fossem mais comuns na crítica os verbos “acho”, “prefiro”, “parece”. O melhor, sem dúvida, é deixar este terreno apenas para os vocacionados, e encontrar meios diversos para, sem jamais apresentar-se como crítico, despejar preferências e opiniões.

Tornou-se difícil imaginar qualidades morais…

Tornou-se difícil imaginar qualidades morais na retaguarda destes bem-sucedidos operadores do direito. Um homem comum, instintivamente, sente-se tomado de repugnância já nas primeiras palavras do discurso empolado que os passou a caracterizar. Seja qual for o papel exercido, é preciso forçar a mente a não considerar o exercê-lo como tomar parte no teatro cínico que se tornou um tribunal. Daí a dificuldade de imaginar que é possível conservar qualidades morais tendo sucesso no cumprimento dos protocolos modernos. Somente o crime organizado parece rodeado de semelhante podridão.

A história de Aladim é destas que…

A história de Aladim é destas que, imberbe ou de cabeça branca, coloca o leitor a sonhar. E é realmente impossível lê-la e não ficar imaginando tudo o que se poderia pedir ao célebre gênio, quão maravilhosamente simples se tornaria a resolução de todos os problemas. Também logo se começa a pensar que boa besta não foi o protagonista, pedindo tão pouco, valendo-se tão superficialmente do imenso poder que lhe caiu em mãos. Sem dúvida, a força desta história se encontra em sua encantadora sugestividade, à qual homem nenhum consegue ficar indiferente. Seja uma grande bobagem toda essa coisa de sultões, magos, joias e princesas, mas são raras as histórias que colocam tão intensamente a mente a sonhar.