Sem dúvida, qualquer estabilidade seria impossível caso o impulso de mudar não fosse repetidamente freado por isto que às vezes se pode chamar de prudência, às vezes de medo, às vezes de pouca reflexão. À mente, porém, nada disso importa: o impulso se repete, os devaneios seguem-no milhares de vezes, e milhares de vezes encerram em qualquer coisa que não seja ação. O budismo sabe bem o fútil e irracional que há nestes devaneios e nessa movimentação incontrolável. Porém, algo tem de significar o impulso que se repete idêntico, o anseio que não se apaga e se intensifica com o tempo. Deixá-lo aparecer e ir-se tão naturalmente como veio… Muito bem, muito bem. Às vezes, contudo, a experiência faz brotar uma pergunta; e esta, hora ou outra, se há de responder.
É curioso de alguns rituais iniciáticos…
É curioso de alguns rituais iniciáticos, especialmente orientais, o representarem a morte e dissolução do passado, para então oficializarem a transformação do iniciado em um novo ser. Por um lado, poder-se-ia questionar se algo assim é realmente possível. Por outro, salta aos olhos que não somente é possível, como, em boa parte dos casos, o ritual não faz senão formalizar algo que efetivamente aconteceu. Muito em razão da psicologia do século XX, costuma dar-se uma importância exagerada e indevida à infância. Em verdade, não é raro que o adulto sequer seja capaz de recordá-la, a não ser uns poucos lances isolados, vagos e irrelevantes. Outros há para os quais a infância pouco significa, — a despeito do que diriam alguns psicólogos de uma só nota, — e não representa senão um período estranho, com experiências recordáveis, mas com as quais não se consegue estabelecer identificação. Há, porém, o dia em que algo acontece, o dia inesquecível, a partir do qual não se permanece como antes: às vezes, é a partir dele que deveras se começa a viver.
É só depois de muito tempo, e após presenciar…
É só depois de muito tempo, e após presenciar muitos rompimentos e muita frustração, que se percebe a verdade da lição: sem o idem velle, idem nolle, a amizade não prospera. E não o faz pelo bem, posto que, com o tempo, sem ele não fará senão estorvar. Quando menos se percebe, já se perdeu tempo, já se foram oportunidades, já se gastou energia e já se estagnou. Daí que não há fracasso mais previsível, quando o tempo não trata de alinhar ao velho princípio, e notá-lo é saber que há forças contra as quais não compensa lutar. Melhor, sem dúvida, é seguir os conselhos da inclinação natural, espontânea, que sem ter de gastar uma única palavra aponta a direção para a qual o espírito deve convergir.
O pudor linguístico e o pudor literário
O pudor linguístico e o pudor literário são coisas diferentes, embora, superficialmente, possam se confundir. Mas quando se analisa bem, percebe-se que há autores que possuem uma forte manifestação do primeiro, do segundo, de ambos ou de nenhum. E em cada caso específico, muito do autor se revela pelo havê-los ou não. Tomando a literatura como um todo que abrange bons e péssimos autores, o mais comum é que a falta de pudor literário seja evidência de falta de cultura; já quanto ao pudor linguístico, o mesmo não se pode dizer. O que se diz e o que se representa são coisas distintas, sendo a linguagem mero instrumento deste último, que pode ser empregado com maior ou menor intensidade, a depender da necessidade e da intenção. Linguisticamente, há impulsos que pedem expressões extremadas; do contrário, não se alcançará uma justa representação. Mas o íntimo de toda obra é anterior à linguagem, e é somente nele que se pode medir o grau de refinamento de um autor.