Se houvesse uma ciência das biografias, mais interessante do que analisar os golpes de sorte, os imprevistos e demais determinações relevantes do destino, seria aprofundar o estudo destas conjunturas complexas muito frequentes, em que o mérito não fica de todo ausente, mas claramente não basta para justificar o sucesso alcançado, e então se aventa que este, ali, no tempo exato e na circunstância específica, “tinha de acontecer”. Outros, talvez com mais talento e maior mérito, não gozaram semelhante resultado, e então se pergunta o porquê. Tais conjunturas impressionam, e por vezes determinam uma vida inteira. Como explicá-las? A nível mundano, concretizam algo incrível, e não deixam outra impressão senão a de que o biografado nasceu para fazer o que fez.
É triste ver que não é raro encontrar…
É triste ver que não é raro encontrar naturezas como empedernidas, para as quais o tempo não faz senão intensificar o círculo de erros de que não conseguem se libertar. A convivência com tipos assim é demasiado penosa, especialmente após alguns anos, quando se tem certeza de que não haverá mudança e a situação se agravará. Chega o dia em que o desconforto se torna insuportável e, então, só resta abandoná-los ao destino. Mas o pior é que fazê-lo não resolve o problema, e deixa na consciência uma ferida dificílima de sanar…
Não há homem suficientemente passivo…
Não há homem suficientemente passivo que chegue à velhice e, olhando para trás, seja capaz de justificar-se como vítima da vida que levou. Isso nunca é possível, e notá-lo escancara uma preciosa lição. Há sempre uma ação que sucede as imposições do destino, e é nela que se grava a marca pessoal. Numa biografia, tais ações ficam em evidência, e assim como não se pode separá-las dos acontecimentos que as motivaram, também não se pode daqueles que, por elas, vieram a se passar. Afinal, é sempre possível apontar o peso da responsabilidade individual.
Poder, como Radhanath Swami, escrever um livro…
Poder, como Radhanath Swami, escrever um livro como este The journey home, e chamá-lo de autobiografia, é algo que uma parcela ínfima dos homens de todos os tempos tiveram a oportunidade de fazer. E é difícil imaginar o quão satisfatório deve ser olhar para trás e ter vivenciado uma história como essa, tão incrível como instrutiva, e somente não modelar porque jamais poderá ser vivida por um homem comum. Para ter experiências parecidas, é preciso ter a coragem própria dos loucos, que nada temem e estão sempre dispostos a perder o que têm. Mas aí está uma prova mais de que a loucura compensa, e de que este mundo parece um tanto diferente para aquele disposto a sacrificar-se para realizar aquilo que mais intimamente quer.