E. T. A. Hoffmann no século XXI

Sorrio imaginando o juiz E. T. A. Hoffmann: juiz, nas palavras de Carpeaux, “dos mais honrados e — em tempos difíceis de reação política — dos mais independentes que houve jamais na Prússia”. Sorrio imaginando esse juiz em nosso estimável século. Quero dizer: o juiz, que também era habilíssimo narrador, seria facilmente destruído pelas hordas imbecis e invejosas que, nestes tempos, divertem-se arrasando vidas e carreiras. Engraçadíssimo seria, por exemplo, o enredo de Die Elixiere des Tenfels, romance primorosamente arquitetado, adaptado aos nossos dias: um pastor evangélico possuído pelo diabo é conduzido ao assassinato e ao incesto, logrando não só camuflar os próprios crimes, como galgar posições na pirâmide social. Pergunto: é ou não é divertido imaginar o que aconteceria com a reputação desse juiz caso tivesse-lhe o romance divulgado? Teria ele condições de, por exemplo, ser nomeado à Suprema Corte? O honrado juiz, neste século, aprenderia o que é ser democraticamente linchado.

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Quero crer que a glória está no livre-arbítrio

Quero crer que está, no livre-arbítrio, a glória proveniente da guerra de fim conhecido. Através dele, e somente dele, é possível vencer — ainda que temporariamente, ainda que somente uma batalha… — a sinistríssima fortuna. Pensando desta forma, não consigo deixar de resumir o caráter qualitativo de toda a complexa e ambígua natureza humana num único elemento: a volição.

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A representação viva de manifestações psicológicas contrárias

O grandioso, em literatura, envolve a representação viva de manifestações psicológicas contrárias. Grandes autores, naturalmente, estreitam-se e afastam-se de ideologias opostas, a depender do ponto de vista, porquanto o ser grande envolve a capacidade de apreender a realidade sob variadas perspectivas. Um grande autor jamais se lhe permitirá a obra viciada, previsível, e por isso jamais será enquadrável numa caixa ideológica sem milhares de ressalvas.

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Seria infinitamente mais feliz fosse uma árvore

Seria infinitamente mais feliz fosse uma árvore. Corrijo: uma pedra — hoje árvores são abraçadas… — Pedras não escutam, não são incomodadas, requisitadas, não pagam impostos e, a palavra é exatamente essa, vivem em paz. Senão como componentes da paisagem, são invisíveis. E quem saberá dizer os limites de seu universo interior? A incapacidade de escutar — presumo; pois se escutam, jamais reagem… — é algo realmente invejável e superior. A fraca mente humana, tão vulnerável a sofrer distúrbios terríveis provenientes do ruído, que a submetem e calam-na em extrema facilidade, só tem a invejar a placidez da vida deste insigne ser rochoso…

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