Pode-se dizer que, fundamentalmente, a literatura se destina a narrar, e portanto a preservar, aquilo que aconteceu. Sem ela, não haveria história, e não haveria cultura. Em algum momento, porém, percebeu-se que ela poderia mais, que ela poderia narrar, também, aquilo que não aconteceu, mas poderia ter acontecido ou poderia acontecer. Talvez seja impossível dizer de quando data essa descoberta. Desde então, contudo, é nisto que se baseou a grande literatura: no factual ou no verossímil, ou em ambos ao mesmo tempo. O que salta aos olhos é que não importa o quanto o tempo passe: deste norte a literatura não se pode desviar. O escritor, portanto, tem de necessariamente ter em mente a realidade enquanto escreve; do contrário, não será capaz de produzir uma obra de valor. Dê à imaginação plena liberdade, empregue alegorias, faça o que quiser; mas a sua obra será sempre, sempre, confrontada com o real.
Decerto, a psicologia ocidental do século XX…
Decerto, a psicologia ocidental do século XX avançou no diagnóstico e na descrição de quadros de loucura. Avançou, também, na compreensão de reações comportamentais características em determinadas condições. Expandiu, ainda, e muito, o repertório descritivo utilizado para caracterizar personalidades. Tudo isso tem valor. Contudo, parece evidente que, nesta altura, já se demonstrou impossível o sonho de uma teoria unificada. Também parece evidente que os psicólogos, em desacordo terminante sobre o que seria a tal da psique, não podem senão captá-la parcialmente, na melhor das hipóteses — aquela em que algo dela conseguem captar. Assim, cada psicólogo se acaba especializando num tipo de psique, ou em determinados aspectos da psique. Aqui, fica claro o problema. Se o psicólogo tenciona eficácia no tratamento de determinados tipos de pacientes, é seguir adiante; se, porém, busca mais do que uma terapia direcionada, talvez tenha de tomar um rumo bem diferente daquele que tomou a psicologia ocidental.
É fácil imaginar o desprezo de um intelectual…
É fácil imaginar o desprezo de um intelectual ocidental ao percorrer algumas páginas de literatura oriental, e fácil entender as razões de seu desprezo. Ocorre, porém, que ele repara a ausência de seu padrão costumeiro, mas não se questiona sobre o fundamento do que lê. Fizesse isso, talvez abriria uma porta. Talvez mudasse, talvez crescesse, talvez aprendesse algo novo, que jamais imaginou. Mas a ignorância é desses pecados que não se admite. Reconhecer que, com uma vida inteira nas costas, não se percebeu o essencial… É muito mais confortável desperdiçar também o que resta dela.
Embora nunca assumida, e nunca apregoada…
Embora nunca assumida, e nunca apregoada, há uma diferença qualitativa demasiado óbvia entre a poesia que se funda em mentiras e aquela fundada em impressões verdadeiras. Assumi-lo, contudo, é ver com novos olhos grande parte dos poetas laureados, algo que ninguém parece se dispor a fazer. Mas é preciso notar que, se tomados a sério, talvez não haja piores conselheiros e piores mentirosos do que estes inumeráveis poetas que tudo envolvem de sensualidade: o que chamam de “beleza”, “doçura”, “encanto” é simplesmente falso. Como, pois, reputá-los tão eminentes se só sabem trabalhar com ilusões? Falta-lhes realidade, e a percepção de que a verdadeira beleza permanece. É com certeza mais difícil, mas não é impossível conceber uma poesia laudatória que se ampare numa intuição real.