A visão de mundo que elimina da realidade o não mensurável e não compreensível, para além de infantil e esterilizante, tende a capacitar o homem a atos monstruosos e torná-lo um animal supinamente traiçoeiro. A compreensão errônea que faz do mundo distorce a importância que reputa a si mesmo, minando as noções de dependência e fragilidade. Mas o pior, sem dúvida, é a ilusão de sentir-se liberto, isolado, habilitado a todo o saber e a todo o agir. Medra, assim, o amor-próprio mais destrutivo que se pode conceber. Nada o sujeita, ninguém o observa, e não há contas a prestar. Tal homem, é tê-lo sempre longe e não lhe dar a menor atenção.
Em muitos aspectos é prejudicial nascer…
Em muitos aspectos é prejudicial nascer numa sociedade acostumada ao fracasso. Psicologicamente, o efeito é devastador. Mas o fracasso, em si, quando experimentado, pode beneficiar. O problema talvez comece nos parâmetros: fracassando, pode-se descobrir outros. Um novo norte surge, o qual talvez mereça ser adotado. A sociedade que acostuma ao sucesso, às vezes, inibe a reflexão que revela possibilidades. Cria vitoriosos que não têm de pensar. Um dia, contudo, acabam se deparando com a experiência fundamental. Cessa o sentimento triunfante, e se inveja aqueles que, afortunadamente, tiveram-na quando dispunham de mais tempo para viver.
O homem que nutre o ideal de liberdade…
O homem que nutre o ideal de liberdade tende a amargurar-se muito, porque a liberdade nunca é plena e, às vezes, só aparece associada a uma restrição. É inútil querer resolver o problema: em tudo se encontra o indefinido e o determinado. O homem é livre dentro de certas condições e sob certos aspectos dos quais nunca se poderá totalmente libertar. Crer que, um dia, finalmente, conseguirá fazê-lo é simplesmente estupidez. Mas há escolhas as quais não se pode deixar de fazer; há liberdades essenciais. Somente a estas se deve direcionar a atenção.
Na vida de estudos, cedo ou tarde…
Na vida de estudos, cedo ou tarde, tem de ser desenvolvida a habilidade de lidar com o paradoxo de que só se deve, ou só se deveria ler aquilo que se deseja reter, embora o conhecimento de pilhas e pilhas de livros seja necessário para o avanço em qualquer estudo sério. Para este dilema, nunca há solução definitiva. É preciso ler, e ler lentamente; mas o interesse real que sustenta a leitura atenciosa quer ir atrás de fontes, quer alargar mais e mais a própria compreensão: o resultado é uma lista de próximas leituras que só cresce, indefinidamente. Logo se percebe que não é possível ler tudo quanto se pretende, que é preciso escolher. Mas escolher já encerra outro problema: é preciso mesclar o seguro ao misterioso, ao inexplorado, pois nunca se sabe exatamente o que neles se pode encontrar. Enfim, o estudo tem de se deter em listas, títulos, índices, e se não encontra tudo o que procura, é força reconhecer que a finitude denota necessariamente um limite naquilo que se pode procurar.