Se é verdade que o escritor…

Se é verdade que o escritor, diferentemente do homem público, não costuma receber nesta vida a recompensa do seu trabalho, também é verdade que ele é praticamente imune a tudo quanto destruiria a carreira do segundo. Frequentemente, o que se dá é o contrário, e tomam caráter intrigante aqueles traços da conduta ou da personalidade que, ao homem público, seriam o escândalo certo. Neste sentido, o escritor é privilegiado, e desfruta a vantagem de não ter de falsificar-se para exercer a sua profissão.

É um tanto agoniante correr as páginas…

É um tanto agoniante correr as páginas daquele romancista que, bom escritor, esmerado e sério, não consegue se elevar acima do banal. Oh, infelicidade! Torcemos por ele, ficamos como a querer ajudá-lo, esperançosos de que na página seguinte a narrativa atingirá um nível superior; mas não adianta, nada disso sucede, e enfim nos resta o lamento. Ao menos, lembramo-nos que o grande escritor é grande entre muitos, e precisamente a sua raridade é o que o torna especial.

Às vezes, a mais vasta cultura…

Às vezes, a mais vasta cultura prova-se estéril. Desenvolve-se, atinge estatura impressionante e, mesmo assim, não frutifica. Ou pelo menos não como esperado. E quando analisamos os motivos, sempre, sempre, está lá comprovado pelo exemplo que cultura nenhuma frutifica, senão entranhada de uma experiência suficientemente vasta e igualmente singular. É somente unida a esta que pode realizar-se em obra não apenas única, mas real. Por isso, talvez seja mesmo destinada a senhores que, anos antes, tinham coisas bem diferentes com que se preocupar.

O homem moderno tem gosto pela comodidade

O homem moderno tem gosto pela comodidade, e tudo o que não deseja são experiências que o chacoalhem e o forcem a se mover. E quando lhe analisamos os dias, os anos, vemos quão lamentáveis são os efeitos da mediocridade, da conveniência e do ócio. É curioso notar a frequência de experiências extremas nas grandes almas, cujo caráter parece se consolidar justamente por elas. Sublimes ou duras, afinal marcam menos pela natureza que pela intensidade, representando a essência transformadora que o costume moderno pretende evitar.