Algo a que custa acostumar a mente a sempre ter em vista nas biografias é cotejar a grandeza de algumas personalidades com a absoluta falta de reconhecimento de tal grandeza enquanto viviam os biografados. Muitas vezes, a consagração póstuma rebuça esse contraste, e mal conseguimos imaginar o colosso, se não desprezado, caminhando pelas ruas como um homem comum. Mas é preciso tê-lo sempre em vista, e com fazê-lo aproximamo-nos muito mais da realidade que o circundava, visualizando melhor a sua verdadeira dimensão.
O segredo de muitos escritores consiste em amplificar…
O segredo de muitos escritores consiste em amplificar, exagerar uns poucos traços que, em suas personalidades, já se mostram naturalmente salientes. Para fazê-lo, porém, é preciso vencer aquele receio inicial do que os leitores poderiam pensar. O curioso é que, quase sempre, são estes receios infundados, e o exagero cristaliza-se em estilo, torna-se o maior indicativo da verve individual. Vemos o efeito, e então o comparamos com os exemplos contrários, daqueles escritores que aparam as próprias saliências, como se buscassem parecer mais “normais”. Parece que a aceitação almejada não se alcança, e afinal suas obras causam uma má impressão. No confronto direto, em última instância, o público sempre prefere os loucos aos sem graça.
Paralelo ao sentimento de que o mundo exige…
Paralelo ao sentimento de que o mundo exige uma resposta individual às circunstâncias impostas, corre, às vezes latente, às vezes manifesta, a certeza de que o mundo, em verdade, é indiferente: nada exige e nada espera de ninguém. Daí que, em alguns, nasce um sentimento insuportável, um desamparo que redunda em inércia e desmotivação. O problema, decerto, está no mundo: está em tê-lo como árbitro, em querer tê-lo como amigo, em exigir dele recompensas. Já se vê que tudo isso brota de um desajuste interior. Ser indiferente à indiferença não basta, nem resolve nada; o que basta é ter algo estável como fundamento da motivação.
Em literatura, não se ensina o bom gosto
Em literatura, não se ensina o bom gosto, e também não se ensina, nem se pode racionalizar, essa fina percepção que o bom leitor desenvolve e é infalível para detectar a falsidade num texto. Às vezes, mesmo que o autor impressione no manejo da linguagem, mesmo que a trabalhe com habilidade e, linguisticamente, o texto soe natural, tudo estará perdido caso ele careça de autenticidade. Neste caso, o falso berra e não há truque capaz de camuflá-lo.