Mal secreto, de Raimundo Correia

Iniciemos o ano com o soneto Mal secreto, de Raimundo Correia:

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

____________

Leia mais:

Dignos de estima!

A classe mais estimável de pessoas é a que vive mediocremente de casa ao trabalho, durante décadas, sem fazer muitos planos, deixando a vida correr. Fazem filhos, casam-se, separando-se ou não. Então se aposentam e terminam seus dias com a cara enfiada numa televisão. Imagino esse padrão e digo: dignos de estima! merecedores dos mais ardentes louvores! E todas as outras pessoas aparentam-me, em diferentes matizes, diminuídas e escravizadas do próprio desejo.

____________

Leia mais:

Falta de maturidade e discernimento

Em nossos dias há um narcisismo e uma preocupação excessiva com o sucesso que são um claro sinal de falta de maturidade e discernimento. Ninguém mais se aceita medíocre. Ou vê-se acima do que é, ou vê-se melhor em um futuro próximo. É claro que isso só pode desembocar em depressão. Fico a pensar quão mais leve calha a vida a quem diz ao espelho: “És medíocre! Tua existência não faz a menor diferença ao mundo! Em cem anos, ninguém lembrará de ti!”.

____________

Leia mais: