A literatura, impossibilitada como se tornou de ser profissão, só pode hoje gerar uns tipos inadaptados e anormais. Porque, afinal, praticá-la é não menos que trabalhar sem expectativa de retorno, algo que ninguém conscientemente faz. Assim, o escritor como que destaca uma parte de seu tempo da “vida normal”, e quanto maior essa parte, quanto mais for autenticamente escritor, mais se afastará da norma, mais se concretizará anormal. Não há solução. E se é quase incontornável a tendência de que fracasse em levar uma vida comum, ao menos tornou-se mais fácil verificar a sinceridade de sua vocação.
A primeira coisa que o estudante deve ter em mente…
A primeira coisa que o estudante deve ter em mente ao iniciar a investigação de qualquer assunto é: tudo quanto já se afirmou, já se refutou; tudo quanto já se elogiou, já se criticou; tudo quanto já se teve por regra, já se violou; e para cada exemplo de determinada teoria, de determinada corrente, de determinado estilo ou de determinada inclinação, é possível encontrar um exemplo contrário. Isso é fundamental para que o estudante tenha cautela, e não abra jamais um livro à espera de um ponto final. O bom aprendizado é estimulante, incita mais estudo e não menos, movimenta em vez de paralisar.
Demora muito para separar-se da cultura vigente…
Demora muito para separar-se da cultura vigente, ainda que de forma parcial, e habilitar-se a enxergar a filosofia e a história com lentes menos contaminadas. Às vezes, uma vida não basta. E por isso são afortunados aqueles que cedo conseguem definir o que buscam do estudo, então traçando um plano mais ou menos definido de investigação. Com uma meta visível, fica mais fácil aprofundar-se e consequentemente descobrir o que, no início, nem dava pistas de existir. Daí se abre um novo mundo, alienando permanentemente aquele que o consegue enxergar. O esforço compensa; embora, sem dúvida, não seja um processo indolor.
Os vigilantes, de Herberto Sales
Não pode despertar senão respeito a realização de Herberto Sales que, no conto Os vigilantes, construiu-o unicamente para fazer uma piada no fim. É uma bela apresentação! Decerto, a piada o justifica. E curioso notar que, às vezes, a piada é a preparação para a piada. A graça vai sendo trabalhada cuidadosamente muito antes do efeito final; cria-se, por assim dizer, o cenário oportuno para que ela irrompa surpreendendo. Então ela coroa a narrativa tal como a dita chave de ouro coroa um soneto: justificando o esmero precedente em ocultar ou salientar aquilo que é esclarecido no final. Justíssimo dedicar um conto inteiro a uma piada memorável!