Ser capaz de enxergar o momento atual em perspectiva exige um nível de consciência tão raro que, talvez, mereça ser qualificado como dom. Fazê-lo permite integrar-se corretamente no tempo, agindo conforme convém, isto é, dando a devida justificação ao passado e garantindo que, no futuro, haverá algo por que se congratular. Quiçá, apenas por isso, não se justifique a alcunha de gênio; mas aquele que o realiza, uma única vez, se lembrará para sempre deste momento de raríssima iluminação.
Algumas memórias, quando lançam luz…
Algumas memórias, quando lançam luz sobre aspectos do passado que passaram quase despercebidos, dão o que pensar. Parece incrível que elas evoquem sentimentos que não foram experimentados quando as circunstâncias em questão foram efetivamente vividas ou, ao menos, não se lhes atentou para o devido valor. Agora, é deixar-se mover pela saudade. Assim que parece, quando se afunda nestas lembranças, que o conjunto das situações vividas em determinado momento, ainda que aparentemente infelizes, ainda que marquem por algum aspecto desagradável, guardam, também, outro deveras especial. E é este enfim que talvez não se tenha sabido aproveitar, e que agora não se pode fazê-lo, porquanto o momento passou.
A facilidade com que um autor aborda…
A facilidade com que um autor aborda os seus temas preferidos esconde o quão perigoso pode ser imitá-lo. Lendo-o, parece tudo muito simples. Mas é simples porque a abordagem nasce de uma inclinação autêntica, e esta não é imitável. Para descobri-lo, porém, às vezes é preciso experimentar. E disso não escapam nem os melhores. Um belo exemplo são as Americanas de Machado de Assis. Certamente, a um amigo que pudesse ver-lhe interiormente, enxergar-lhe as obras futuras e o potencial criador, bastariam meia dúzia de versos para que viesse a recomendação jocosa: “Ora, meu bom Joaquim! Largue essa coisa de Anhangá e tacape! Você nem sabe o que é isso”. E, decerto, não haveria melhor conselho: o autor daqueles versos não era Machado de Assis. O duro é que, na prática, só é possível dizê-lo porque Machado, sozinho, percorreu a trilha das falhas para se descobrir e se nos revelar.
A influência de um autor pode ser medida…
A influência de um autor pode ser medida quando se repara o quanto imitaram suas excentricidades. Salvo Gonçalves Dias, provavelmente nenhum escritor brasileiro jamais viu um índio de verdade. Ainda assim, a literatura indianista virou moda, lançando algumas dezenas de obras ociosas, quase ilegíveis, porque obviamente falsas. Todos esses nomes de plantas, de bichos, de tribos, só se harmonizam com a tradição vernácula portuguesa quando tal harmonia não representa senão a essência íntima do autor. Evidentemente, trata-se de uma excentricidade, que cai bem em Gonçalves Dias porque poderia, ela própria, chamar-se Gonçalves Dias. Quantos, porém, não o notaram! E então, à vista da lindíssima Baía de Guanabara, gastaram o ócio falando de índios que nunca viram! Felizmente, os melhores aprenderam das tentativas falhadas, e um anjo os convenceu de que, para fazer boa arte, basta tomar como matéria-prima aquilo que os olhos conseguem ver.