Às vezes estranha o acostumar-se aos heróis da grande literatura, e então voltar os olhos para o exemplo real de uma vida comum fracassada. Na grande literatura, nem sempre o herói se aventura como quer Joseph Campbell, mas este não erra ao notar que ele tende a evoluir e aprender. É, aliás, o efeito que se espera dos anos no curso de uma vida. Então observamos o exemplo real daquele que parece não ter aprendido nada, não ter amadurecido nada; aquele que tropeçou jovem e, velho, continua a tropeçar. É estranho porque parece um desperdício quase insultuoso, uma recusa ferrenha, inumana, de tomar lições da experiência. Esse é o único fracasso pleno: não tirar proveito daquilo que se viveu.
Diz Dante Milano, no ensaio O verso dantesco…
Diz Dante Milano, no ensaio O verso dantesco:
Em nenhum idioma o “r” soa com tantas vibrações como no italiano. E é desta letra que Dante tira os mais fortes efeitos verbais. Ela é que exprime toda sua cólera. E nenhum outro idioma possui essa força verbal, essa raiva na boca, nos olhos, nas mãos e nas palavras, esse poder de expressão que parece estraçalhar o vocabulário.
Percepção um tanto curiosa… A mim, parece o italiano um idioma muito mais equilibrado diante de suas línguas irmãs, bem próximo ao português, com a diferença que o italiano não possui este fonema gutural fricativo que vemos em “rio”, “Recife”, “raio”, e que, em muitas regiões, como a em que vivo, é também empregado nos “rr”. Comparado ao espanhol, a diferença é mais evidente: o espanhol treme muito mais que o italiano com seus abundantes “r” e “rr”, além de empregar idêntico gutural fricativo no “j”, no “g” antes de “e” e “i”, e no “x” nalguns casos. Se foneticistas o não consideram propriamente um “r”, problema da fonética!, porque o potente fonema não será melhor definido pelo ouvinte senão como um “som de r”. E se o italiano parece tremer pouco diante do espanhol, é diante do francês que mais se evidencia suave — do francês, no qual o gutural fricativo parece dez vezes amplificado e se entranha em todos os períodos, como um som entalado na garganta do falante, que dele jamais se poderá libertar. Quiçá o ouvido se deixe influenciar por experiências que transcendam a fonética. É razoável…
O pressentimento do perigo
Diz o caçador Jim Corbett, em Man-Eaters of Kumaon:
I have made mention elsewhere of the sense that warns us of impending danger, and will not labour the subject further beyond stating that this sense is a very real one and that I do not know, and therefore cannot explain, what brings it into operation. On this occasion I had neither heard nor seen the tigress, nor had I received any indication from bird or beast of her presence and yet I knew, without any shadow of doubt, that she was lying up for me among the rocks.
E de novo:
The premonition of impending danger is too well known and established a fact to need any comment. For three or four minutes I had stood perfectly still with no thought of danger and then all at once I became aware that the tiger was looking at me at a very short range. The same sense that had conveyed the feeling of impending danger to me had evidently operated in the same way on the tiger and awakened him from his sleep.
Agora quem diz é o montanhista Joe Simpson, em Touching the Void:
As I climbed up to rejoin his tracks it occurred to me that I had felt a moment of anxiety only minutes before Simon had fallen. I had noticed this in the past and always wondered about it. There had been no good reason for the sudden stab of worry.
E de novo:
I wanted to sleep. I couldn’t be bothered to move any more. I was warm enough sleeping on the snow. The storm would cover me like a husky and keep me warm. I nearly slept, dozing fitfully, edging close to the dark comfort of sleep, but the wind kept waking me. I tried to ignore the voice, which urged me to move, but couldn’t because the other voices had gone. I couldn’t lose the voice in daydreams. ‘…don’t sleep, don’t sleep, not here. Keep going. Find a slope and dig a snow hole… don’t sleep.’
Uma vez experimentado, a realidade de semelhante pressentimento é colocada fora de questão. E não seria exagero afirmar que aventureiros como os supracitados dependem dele e nele confiam. Os exemplos poderiam prosseguir indefinidamente… Em situações extremas, por algum motivo, algo ocorre. Se a captação do perigo é dependente da absorção total no ambiente, não se pode dizer. Mas algo se passa, e a percepção grita mesmo sem o amparo dos sentidos “tradicionais”. De muitas maneiras, o homem é bem mais interessante e complexo do que se costuma supor…
Poucas coisas satisfazem tanto quanto…
Poucas coisas satisfazem tanto quanto adquirir uma nova habilidade, isto é, quanto capacitar-se a fazer algo que antes não se conseguia. A sensação é assaz gratificante, e às vezes prova equivocado o juízo que se fazia das possibilidades. É difícil dimensionar as capacidades humanas: o corpo e a mente costumam suportar mais do que se supõe. Com prática e determinação, prodígios ocorrem; e dificilmente se iguala a satisfação de olhar para trás e ver que, por esforço próprio, foi possível tornar-se capaz.