É sempre muito interessante quando…

É sempre muito interessante quando o historiador ou o biógrafo, fugindo das generalizações costumeiras, consegue esboçar a influência dos fatores econômicos nas vidas individuais. Porque tais fatores, embora às vezes superestimados, e embora isoladamente não expliquem tudo, determinam muito daquilo que se faz. Há decisões que soam irracionais se despojadas dos fatores econômicos que as motivaram, como também há provações, infortúnios e estados de espírito economicamente fundamentados. Às vezes, é neste tipo de fator que se condensam os maiores empecilhos para que uma personalidade possa se afirmar. Parece rasteiro, mas é assim.

Nunca é fácil visualizar o ensejo presente…

Nunca é fácil visualizar o ensejo presente e calcular quão rapidamente ele terá sido uma oportunidade que se foi. Algumas decisões maturam muito antes do que se espera, e quando se percebe, a própria hesitação já frutificou. Um intervalo de cinco míseros anos cria uma nova realidade, na qual o passado materializou-se em consequências visíveis com as quais só se pode aprender. Aprende-se, decerto, mas o conhecimento adquirido acaba por não ajudar muito a vencer, no presente, aquela dificuldade inicial.

Na maioria dos casos, o amadurecimento…

Na maioria dos casos, o amadurecimento se dá por necessidade: as circunstâncias impõem uma mudança de postura, o afastamento dos hábitos e preferências do passado, a adaptação ao contexto atual. Por isso, a necessidade é frequentemente positiva. Nos casos em que não atua, ou não se mostra tão acentuada, isto é, nos casos em que o amadurecimento depende de uma ação voluntária, muitas vezes não se dá. Há quem não consiga vencer a resistência interna e passe a vida apegando-se a um passado que já se foi. É triste, porém, notar o resultado: fica-se com a impressão de que, pela incapacidade de romper com umas poucas velhas amarras, produziu-se um desajuste antinatural.

Milagro en los Andes, de Nando Parrado

Lendo este relato, vem à mente o romance de Poe e suas cenas cujo horror parece ter algo de excessivamente absurdo e impossível. São aparências: o horror máximo é possível e real. Tudo neste acidente nos Andes é extraordinário, desde a queda do avião ao resgate dos sobreviventes, mais de dois meses depois. A impressão é que vai acontecendo, seguidamente, aquilo que não poderia acontecer. As expectativas são metodicamente trucidadas, para o bem ou para o mal, e a sensação resultante é de absoluta impotência. Contudo, os sobreviventes agem, desde o início, e continuam a agir mesmo esmagados pela brutalidade das montanhas colossais. Quando já não esperam nada, quando já suportaram uma dose inacreditável de sofrimento e miséria, quando já se veem como cadáveres provisoriamente vivos, deliberam uma tentativa final. E, então, o impossível ocorre mais uma vez. É tudo demasiado impressionante, e forte o suficiente para mudar em definitivo a noção que se faz do viver.