Tal como se nota nas personalidades individuais…

Tal como se nota nas personalidades individuais, parece muito conveniente fazer uma distinção, na literatura, que separe autores cujo espírito inclina-se ao conhecimento e autores cujo espírito inclina-se ao prazer. A poesia, mais do que os outros gêneros, evidencia tratarem-se de tipos muito distintos, nos quais os anos provocam transformações diversas, de maneira que, aos primeiros, a obra parece ser muito mais dependente desta evolução. Assim que a tendência é que estes produzam o melhor de sua obra no final, ganhando os primeiros livros um caráter meio que preparatório, de maior interesse para o biógrafo do que para o leitor comum. Já os outros, não é raro que a maturidade estrague aquela verve juvenil da qual dependem suas melhores composições.

O simples viver em ambientes distintos…

O simples viver em ambientes distintos pode produzir homens com experiências tão diferentes que, caso tentem, perceberão que não é possível estabelecer mutuamente uma comunicação. Nenhum deles conseguirá captar corretamente o sentido daquilo que o outro diz, e acabará por julgá-lo descabido antes que suspeite o problema poder estar em sua própria compreensão. A realidade, idêntica para todos, tem aspectos revelados apenas para alguns. E se, não por vontade própria, mas por uma necessidade qualquer, imprevista e incontrolável, a qual impede o desvio e exige a confrontação, alguns daqueles se acabam mostrando, o homem que os tem de confrontar saberá por experiência que são reais, possivelmente terá sua personalidade transformada para sempre; mas, ainda assim, talvez nunca consiga transmutar em palavras e convencer outro homem daquilo que vivenciou.

É um costume um tanto proveitoso…

É um costume um tanto proveitoso este de, rotineiramente, após concluída a tarefa, ou melhor, após atingida a meta diária estipulada previamente, não interromper a atividade e permitir-se ir um pouquinho além. O resultado mais óbvio é o pequeno ganho em produtividade. Mas, psicologicamente, tal costume produz algo melhor. Com a meta atingida, experimenta-se aquela boa sensação de dever cumprido; contudo, se a atividade não se encerra ali mesmo, lembra-se de que a meta só existe em função de um objetivo maior. Aproximando-se dele, ainda que apenas um pouco mais, aumenta-se a satisfação experimentada e se educa a mente, que, livrando-se de uma possível desculpa, acostuma-se a fazer sempre o mais que pode para chegar aonde quer.

Sem dúvida, qualquer estabilidade…

Sem dúvida, qualquer estabilidade seria impossível caso o impulso de mudar não fosse repetidamente freado por isto que às vezes se pode chamar de prudência, às vezes de medo, às vezes de pouca reflexão. À mente, porém, nada disso importa: o impulso se repete, os devaneios seguem-no milhares de vezes, e milhares de vezes encerram em qualquer coisa que não seja ação. O budismo sabe bem o fútil e irracional que há nestes devaneios e nessa movimentação incontrolável. Porém, algo tem de significar o impulso que se repete idêntico, o anseio que não se apaga e se intensifica com o tempo. Deixá-lo aparecer e ir-se tão naturalmente como veio… Muito bem, muito bem. Às vezes, contudo, a experiência faz brotar uma pergunta; e esta, hora ou outra, se há de responder.