O homem moderno tem gosto pela comodidade

O homem moderno tem gosto pela comodidade, e tudo o que não deseja são experiências que o chacoalhem e o forcem a se mover. E quando lhe analisamos os dias, os anos, vemos quão lamentáveis são os efeitos da mediocridade, da conveniência e do ócio. É curioso notar a frequência de experiências extremas nas grandes almas, cujo caráter parece se consolidar justamente por elas. Sublimes ou duras, afinal marcam menos pela natureza que pela intensidade, representando a essência transformadora que o costume moderno pretende evitar.

Mais impressionante do que os feitos descritos…

Mais impressionante do que os feitos descritos na biografia de Milarepa é a caracterização perfeita da loucura como constituinte necessária da santidade. Só de imaginá-lo como retratado, um “esqueleto” de pele esverdeada, um “fantasma”, um miserável debilíssimo, vestido em farrapos… E mesmo assim notar-lhe a vontade pétrea, a abnegação total e a resolução que não cede perante as mais intensas e mais básicas necessidades. O que mais impressiona é que, após assimilar a razoabilidade da loucura, acaba-se constatando que loucos, em verdade, estavam todos os demais.

Realmente, a vida seria impossível sem…

Realmente, a vida seria impossível sem a certeza da impermanência, que se dá cotidianamente sob a expectativa de que algo pode mudar. Possível a mudança, é também possível a ação. E ainda que por vezes a consciência falhe, logo a realidade trata de restabelecê-la, desfazendo quanto parecia estável e incitando o movimento uma vez mais. Ao homem, por quanto tempo viva, é sempre concedida a condição de alterar.

O melhor que faz o aluno para fixar o conteúdo…

O melhor que faz o aluno para fixar o conteúdo recém-aprendido é expô-lo, ainda que parcial ou imperfeitamente. Tal o sabem professores e alunos e, por isso, é prática usual. Contudo, também fica evidente que ao fazê-lo, se não o encarando como mero exercício, arrisca-se arbitrar sobre o conhecimento ainda não consolidado, e naturalmente se erra, e se erra muito. O curioso é parecer este um processo necessário, e frequentemente nos depararmos com o conhecedor que, anos antes, vagueou por bem longe de onde o conhecimento o conduziu. Dominar um assunto talvez não seja mais que reunir intimamente o arsenal dos erros que impedem a sua compreensão.