Um dos piores erros que o escritor pode cometer…

Um dos piores erros que o escritor pode cometer é produzir com o intento de integrar-se em algum grupo. O resultado, quase sempre, é o sacrifício daquilo que de mais valioso poderia expressar. Assim que mentes talentosas, promissoras, pulsantes de autêntica motivação artística, largam mão de tudo isso por algo que, se bem resumido, não é senão o velho desejo de aceitação. O problema maior é que, pelo prêmio de ser aceito, julga a mente conveniente pagar o preço de agradar; porém, em arte, quando se tenta agradar, não se agrada, e certamente se corrompe.

É impressionante a incapacidade de alguns críticos…

É impressionante a incapacidade de alguns críticos de diferenciar uma ideia de sua expressão, o que os conduz a uma lamentável interpretação literal. E vê-lo em supostos conhecedores de arte… Assim, associam ao autor a feição que a obra deixa transparecer. Em verdade, o método muitas vezes funciona; mas falha miseravelmente quando o motivo artístico se manifesta nas conclusões daquilo que se representou. Para o crítico, não deveria ser difícil ver o moralista em Nelson Rodrigues, o cristão em Dostoiévski, a sobriedade no explorador da loucura, a qualidade que, ciente de si mesma, representa a sua oposição. Tudo isso é demasiado simples, mas parece haver profissionais das letras que não tiveram a oportunidade de aprender.

O maior problema do ensino…

O maior problema do ensino é que seus resultados são dependentes do aluno, e este só aprende deveras aquilo que quer aprender. É curioso porque, se movido por interesse verdadeiro, o aluno dispensa professor. E então se pode conjeturar quão menos dificultoso lhe seria o caminho do aprendizado, quão útil lhe seria fornecer de antemão atalhos, lhe apontar a solução de obstáculos esperados e lhe oferecer um itinerário que somente o estudo prolongado é capaz de esboçar. Tudo isso é certo, mas o é desde que se considere o aluno ideal. Ao aluno comum nunca se impõe o estudo sério. E o aluno ideal, que só por sorte se apresenta ao professor, talvez também por sorte será compelido ao dificultoso caminho que somente ele poderá percorrer.

Não se fará, e nem faria sentido que se fizesse…

Não se fará, e nem faria sentido que se fizesse uma nova Divina comédia, embora justamente possa ela ser considerada o modelo supremo de realização artística nas letras. Neste sentido, é forçoso admitir: a mudança do tempo exige uma arte que a represente. Contudo, o haver ali condensada toda a cultura de uma época, que se harmoniza com a manifestação de uma consciência individualíssima a qual, embora nela se movimente e por ela se expresse, consegue ao mesmo tempo pintá-la e julgá-la, é lição que o artista moderno faz muito bem em assimilar. O tempo presente é, e sempre será, uma oportunidade única. O novo é necessário, mas não sairá valioso se não fundado numa velha e imorredoura compreensão.