Embora nunca assumida, e nunca apregoada…

Embora nunca assumida, e nunca apregoada, há uma diferença qualitativa demasiado óbvia entre a poesia que se funda em mentiras e aquela fundada em impressões verdadeiras. Assumi-lo, contudo, é ver com novos olhos grande parte dos poetas laureados, algo que ninguém parece se dispor a fazer. Mas é preciso notar que, se tomados a sério, talvez não haja piores conselheiros e piores mentirosos do que estes inumeráveis poetas que tudo envolvem de sensualidade: o que chamam de “beleza”, “doçura”, “encanto” é simplesmente falso. Como, pois, reputá-los tão eminentes se só sabem trabalhar com ilusões? Falta-lhes realidade, e a percepção de que a verdadeira beleza permanece. É com certeza mais difícil, mas não é impossível conceber uma poesia laudatória que se ampare numa intuição real.

A visão de mundo que elimina da realidade…

A visão de mundo que elimina da realidade o não mensurável e não compreensível, para além de infantil e esterilizante, tende a capacitar o homem a atos monstruosos e torná-lo um animal supinamente traiçoeiro. A compreensão errônea que faz do mundo distorce a importância que reputa a si mesmo, minando as noções de dependência e fragilidade. Mas o pior, sem dúvida, é a ilusão de sentir-se liberto, isolado, habilitado a todo o saber e a todo o agir. Medra, assim, o amor-próprio mais destrutivo que se pode conceber. Nada o sujeita, ninguém o observa, e não há contas a prestar. Tal homem, é tê-lo sempre longe e não lhe dar a menor atenção.

Em muitos aspectos é prejudicial nascer…

Em muitos aspectos é prejudicial nascer numa sociedade acostumada ao fracasso. Psicologicamente, o efeito é devastador. Mas o fracasso, em si, quando experimentado, pode beneficiar. O problema talvez comece nos parâmetros: fracassando, pode-se descobrir outros. Um novo norte surge, o qual talvez mereça ser adotado. A sociedade que acostuma ao sucesso, às vezes, inibe a reflexão que revela possibilidades. Cria vitoriosos que não têm de pensar. Um dia, contudo, acabam se deparando com a experiência fundamental. Cessa o sentimento triunfante, e se inveja aqueles que, afortunadamente, tiveram-na quando dispunham de mais tempo para viver.

O homem que nutre o ideal de liberdade…

O homem que nutre o ideal de liberdade tende a amargurar-se muito, porque a liberdade nunca é plena e, às vezes, só aparece associada a uma restrição. É inútil querer resolver o problema: em tudo se encontra o indefinido e o determinado. O homem é livre dentro de certas condições e sob certos aspectos dos quais nunca se poderá totalmente libertar. Crer que, um dia, finalmente, conseguirá fazê-lo é simplesmente estupidez. Mas há escolhas as quais não se pode deixar de fazer; há liberdades essenciais. Somente a estas se deve direcionar a atenção.