Demora um pouco para entender que só é possível ter, ou melhor, só é possível buscar uma pequena parte daquilo que se deseja. E que, assim sendo, é preciso definir prioridades, é preciso escolher. Então que, curiosamente, descobre-se que limitar-se é distinguir-se, e que ater-se ao pouco é recompensar-se com maior satisfação. Dizendo desta forma, parece pouca coisa, mas a diferença é enorme entre o homem comum e aquele que despiu-se do desnecessário, tornou-se mais leve e permitiu-se concentrar naquilo que verdadeiramente quer.
Há experiências inexplicáveis, cuja dimensão…
Há experiências inexplicáveis, cuja dimensão só é apreensível para aquele que as viveu em primeira pessoa. Uma dessas, sem dúvida, é a patifaria da modernidade. A quantidade de mentiras que, hoje, se ensina nas escolas, ou melhor, a quantidade de mentiras as quais os alunos assimilam não apenas como certezas, mas com veneração, é algo que homens de outras épocas poderiam compreender apenas superficialmente. Falsificações completas, como a história da Revolução Francesa, ou a biografia de figuras como Newton, Descartes, Maquiavel, ou o surgimento da chamada ciência moderna, ou a história da Inquisição, da Igreja Católica, da escravidão, e a lista não acaba, é preciso tê-las engolido e digerido muito bem para, anos depois, poder-se chacoalhar com o espanto devido ao vê-las incontestavelmente desmascaradas por uma pilha imensa de livros e documentos. Tudo mentira! Tudo, tudo, saturado de segundas intenções! Daí, então, sente-se o desprezo que a modernidade merece, e só um bom moderno é capaz de senti-lo.
O ato que une escritores e os diferencia…
O ato que une escritores e os diferencia das pessoas comuns é sentar-se para escrever. Sentar-se, isolando a mente, envolvendo-a de um silêncio que só consente com a manifestação da voz interior. E, então, concretizá-la no papel. Este ato, simultaneamente criativo e organizador, se para alguns serve de terapia, para todos serve de norte, e uma vez que a ele o cérebro se acostume, abster-se-lhe é quase sempre cair em desorientação.
Se é verdade que o escritor…
Se é verdade que o escritor, diferentemente do homem público, não costuma receber nesta vida a recompensa do seu trabalho, também é verdade que ele é praticamente imune a tudo quanto destruiria a carreira do segundo. Frequentemente, o que se dá é o contrário, e tomam caráter intrigante aqueles traços da conduta ou da personalidade que, ao homem público, seriam o escândalo certo. Neste sentido, o escritor é privilegiado, e desfruta a vantagem de não ter de falsificar-se para exercer a sua profissão.