O maior problema do ensino é que seus resultados são dependentes do aluno, e este só aprende deveras aquilo que quer aprender. É curioso porque, se movido por interesse verdadeiro, o aluno dispensa professor. E então se pode conjeturar quão menos dificultoso lhe seria o caminho do aprendizado, quão útil lhe seria fornecer de antemão atalhos, lhe apontar a solução de obstáculos esperados e lhe oferecer um itinerário que somente o estudo prolongado é capaz de esboçar. Tudo isso é certo, mas o é desde que se considere o aluno ideal. Ao aluno comum nunca se impõe o estudo sério. E o aluno ideal, que só por sorte se apresenta ao professor, talvez também por sorte será compelido ao dificultoso caminho que somente ele poderá percorrer.
Não se fará, e nem faria sentido que se fizesse…
Não se fará, e nem faria sentido que se fizesse uma nova Divina comédia, embora justamente possa ela ser considerada o modelo supremo de realização artística nas letras. Neste sentido, é forçoso admitir: a mudança do tempo exige uma arte que a represente. Contudo, o haver ali condensada toda a cultura de uma época, que se harmoniza com a manifestação de uma consciência individualíssima a qual, embora nela se movimente e por ela se expresse, consegue ao mesmo tempo pintá-la e julgá-la, é lição que o artista moderno faz muito bem em assimilar. O tempo presente é, e sempre será, uma oportunidade única. O novo é necessário, mas não sairá valioso se não fundado numa velha e imorredoura compreensão.
Uma nova orientação surge quando o escritor…
Uma nova orientação surge quando o escritor percebe e assume a herança intelectual da qual é beneficiário, e que através de sua obra tem de se manifestar. Ainda que não percebê-la seja difícil, assumi-la exige deliberação. Somente assim, integrando-se numa tradição que o precede, o escritor obtém a tranquilidade e a certeza de trabalhar em algo que o ultrapassará. Ao escritor moderno, nada pode fazer tão bem quanto inverter a tendência egoísta e vaidosa, encher-se de humildade e conscientemente dedicar a vida a dar continuidade a algo que já começou.
Deve ser mesmo uma sensação gostosa…
Deve ser mesmo uma sensação gostosa ter uma certeza para professar, tê-la pulsante e empregar todo o espírito para colocá-la no papel. É, de certa maneira, fazer jus à sua verdade, e à sinceridade do sentimento que a reconhece. Por isso, experimentando-a, é dever do escritor professá-la, não importa o que vão dizer. Como é dever dos outros apreciar com admiração o ato de sinceridade do escritor que, honrando a profissão, não engana a si mesmo e nem ao seu leitor.