É mesmo uma pena notar que, para o estudante normal, não seja possível aprender em profundidade senão um punhado de línguas, algumas das quais, a bem da verdade, talvez nunca se aprenda suficientemente. E então depende-se de traduções que, via de regra, escondem qualidades do original. O mais lamentável é não se apreender particularidades belíssimas de idiomas distantes, que alterariam por completo a compreensão que se faz de suas obras. Algumas vezes, com muita felicidade, uma tradução fornece vislumbres de tais particularidades; e, captando-os, ficamos com o sentimento triste de que, nesta vida, não será possível conhecê-las melhor…
No Brasil, pior do que notar o desaparecimento…
No Brasil, pior do que notar o desaparecimento de grandes autores em razão de um conluio editorial descarado, é notar o desaparecimento daqueles que, sem qualquer oposição editorial, somem das prateleiras exclusivamente em razão da mesquinharia de seus herdeiros. Isso, sim, é inacreditável, quanto mais num país cujos grandes são poucos, e tendo-se em vista que os herdeiros certamente perdem agarrando-se a semelhante mesquinhez. Causa revolta notar que, morto o autor, sua obra é como reduzida a um produto pecuniário, cuja função é gerar algum dinheiro aos “herdeiros”, quando, em verdade, o dinheiro é mínimo, e os verdadeiros herdeiros ficam privados por lei do legado real. É de chorar!
Um dos piores erros que o escritor pode cometer…
Um dos piores erros que o escritor pode cometer é produzir com o intento de integrar-se em algum grupo. O resultado, quase sempre, é o sacrifício daquilo que de mais valioso poderia expressar. Assim que mentes talentosas, promissoras, pulsantes de autêntica motivação artística, largam mão de tudo isso por algo que, se bem resumido, não é senão o velho desejo de aceitação. O problema maior é que, pelo prêmio de ser aceito, julga a mente conveniente pagar o preço de agradar; porém, em arte, quando se tenta agradar, não se agrada, e certamente se corrompe.
É impressionante a incapacidade de alguns críticos…
É impressionante a incapacidade de alguns críticos de diferenciar uma ideia de sua expressão, o que os conduz a uma lamentável interpretação literal. E vê-lo em supostos conhecedores de arte… Assim, associam ao autor a feição que a obra deixa transparecer. Em verdade, o método muitas vezes funciona; mas falha miseravelmente quando o motivo artístico se manifesta nas conclusões daquilo que se representou. Para o crítico, não deveria ser difícil ver o moralista em Nelson Rodrigues, o cristão em Dostoiévski, a sobriedade no explorador da loucura, a qualidade que, ciente de si mesma, representa a sua oposição. Tudo isso é demasiado simples, mas parece haver profissionais das letras que não tiveram a oportunidade de aprender.