A obra de Leopardi é prova de que não são necessárias…

A obra de Leopardi é prova de que não são necessárias muitas formas poéticas para produzir um forte efeito de variedade. Lendo os seus Canti, a última coisa que se sente é monotonia; e, ainda assim, lá estão sempre os decassílabos e seus quebrados. Contudo, pela variadíssima disposição dos versos e das rimas, nunca se sabe o que vem a seguir. E o cérebro, desafiado e entretido a captar a ordem, vai se satisfazendo do sentido que nunca se permite descair no banal. O problema da forma é real e relevante, mas só se justifica quando verdadeiramente há algo para se dizer.

O livro mais importante ainda a ser escrito…

O livro mais importante ainda a ser escrito por um novo e necessário Gilberto Freyre descreverá o que se passou no Rio de Janeiro nos últimos cem anos. Tal obra, se levada a cabo com seriedade, será a mais significativa do século. É uma catástrofe humana talvez sem precedentes que separa o Rio de Janeiro de Machado de Assis do Rio de Janeiro dos anos 2000 e, ainda que se mostre escandalosamente, é difícil traçar a sucessão de fatos que a possibilitou. Para isso, seria preciso reunir documentos, e penetrar na história com uma consciência e argúcia incomuns, capazes de identificar as raízes psicológicas de um fenômeno cristalizado fisicamente. Alguém terá de fazê-lo. De uma destruição como essa, algo de muito importante se deve aprender. Possivelmente, o destino brasileiro depende do sucesso de tal realização.

Não há como não se divertir com uma boa história…

Não há como não se divertir com uma boa história de pescador, ainda que não se acredite em uma palavra dela. Mas, aqui, as peripécias, os exageros, e mesmo os absurdos provocam o riso, e não a aversão. Por quê? É interessante notar que existe esse tipo de mentira que diverte, que estimula e que gera um sentimento positivo no interlocutor. E ela abre espaço para todo um gênero literário em que a criatividade é livre para se manifestar. A história, quanto mais engenhosa e inverossímil, às vezes mais facilmente se grava na memória, e mais aumenta o mérito de seu autor. Talvez, o mistério deste fenômeno não seja de todo um mistério: nele, a mentira só funciona porque fundada na pureza de intenção.

Quando nos deparamos com aquele que se gaba…

Quando nos deparamos com aquele que se gaba de algo que deveria envergonhá-lo, vemos o quão facilmente a esperteza se converte em vício. A ter semelhante qualidade, é melhor ser sempre enganado! Sem dúvida, não há constrangimento moral em ser vítima, nem em dar crédito àquele que não o merece. Se se perde algo, este algo vai-se sem deixar marcas na consciência, e o tempo jamais cobra o preço do remorso. Aquele que ganha, porém, perceberá que o que ganhou era pouco, e será mais feliz na medida em que a vileza que nutre não dê espaço para objeções — a felicidade plena, como se vê, só sendo possível a um animal.