Chegou-se num ponto em que é impossível…

Hoje, chegou-se num ponto em que é impossível a produção de um scholar como os antigos, que se mantinham mais ou menos a par de tudo quanto aparecia de novidade em muitas áreas do conhecimento. O próprio especialista já encontra humanamente impraticável acompanhar os avanços de sua especialidade. E então se coloca a questão: quantos, hoje, serão capazes de fazer as grandes sínteses, tão necessárias à orientação? Difícil dizer… Mas é sorte notar que os grandes temas não mudaram, e que não é preciso demasiado para alcançar uma incompleta, mas fecunda orientação.

É uma lástima que as Confissões, de Santo Agostinho…

É uma lástima que as Confissões, de Santo Agostinho, não tenham feito escola, e o estilo, ou melhor, o tipo de discurso ali empregado não se encontre em praticamente nenhum outro lugar. Esta obra ensina, numa palavra, o que é discursar com sinceridade máxima, algo que não apenas qualquer escritor, mas qualquer homem tem de saber. E, em verdade, é impossível atingir tal extremo senão quando se discursa para um observador sabidamente onisciente, do qual nada se pode esconder e que, para cada palavra dita, sabe outras tantas mais que não se pôde ou não se quis confessar. É uma lástima que tal modelo não tenha feito escola…

Não espanta ver na literatura…

Não espanta ver na literatura uma coleção inumerável de relacionamentos malsucedidos, visto que, na vida, é mesmo esse o caminho natural. O que talvez seja curioso é o engenho de determinados artistas para retratar as razões do inevitável fim, quando geralmente tudo acontece obedecendo a uma sucessão banal. Ah, Nietzsche, Schopenhauer, seus misóginos! Um relacionamento termina quando se inicia o ciclo da insatisfação. Deste, o primeiro sinal já é o fim anunciado, e não é preciso ser filósofo para perceber o porquê. A natureza do lado insatisfeito é invencível, invencível. Não interessam as circunstâncias, o passado, o tempo de relação: manifestada uma única vez a tendência inata, garante-se o fim. Porque, experimentada uma vez, a insatisfação pode até cessar momentaneamente, mas voltará para destruir. É como o felino selvagem que prova pela primeira vez a carne humana: a partir deste momento, o apetite antropófago jamais o deixará.

Ou se valoriza o que há de penoso…

Não adianta: ou se valoriza o que há de penoso no passado, ou pouco dele se poderá aproveitar. O tempo não retorna, e menos ensina o que menos esforço exige para absorver. Ali onde machuca reside uma oportunidade, e só se aproveita o passado quando se assimila o paradoxo de reconhecer nele a identidade presente ao mesmo tempo que se aceita a parcela do que era, mas já se foi.