Às vezes, mesmo um renomado picareta…

Às vezes, mesmo um renomado picareta, mesmo um ideólogo de quinta categoria, mentiroso e mal-intencionado, pode dar à luz páginas muito interessantes quando descreve suas experiências pessoais. A menos que também as falsifique, conseguirá experimentar na escrita exatamente aquilo que experimenta o grande escritor. E convencerá. Há nisto algo de especial: a escrita oferece a todos, sem distinção, idênticas possibilidades — e para bem aproveitá-las, basta tratar com seriedade o ato de escrever.

A matemática financeira tem algo de cruel

A matemática financeira tem algo de cruel. Estudando-a, verifica-se sem muita dificuldade que ela funciona, isto é, que o longo prazo realmente concretiza a teoria da multiplicação. Embora recente, ela já dispõe de dados históricos suficientes para estimar com certa segurança os resultados de diferentes cenários, incluindo aqueles impremeditados. O risco, também, já se quantifica em números um tanto confiáveis. Daí que todos esses cálculos, todas essas estimativas, toda essa maneira suficientemente segura de operar, com resultados mais que satisfatórios, fundamenta-se sempre em percentuais. O cálculo mais mirabolante, o computador mais poderoso não se consegue livrar desta imposição: uma porcentagem é sempre relativa ao principal.

Não há uma única notícia de jornal…

Não há uma única notícia de jornal que mereça ser impressa e guardada para o futuro, como se faz com toda a literatura de valor. Logo, como é possível que tantos leiam, e tantos se convençam da falsa importância atribuída aos jornais? O jornalismo nunca aproxima o leitor de nenhuma questão verdadeiramente importante. O que faz é afastá-lo de sua individualidade e metê-lo em questões absolutamente fora de seu campo de ação, que não interferem em sua vida, e quando interferem, é o tipo de interferência contra a qual nada se pode fazer. Uma contribuição prática, portanto, nula; para não dizer que, o mais das vezes, o jornalismo não inspira senão sentimentos ruins. O melhor é sempre desprezá-lo. E, dependendo dele para o próprio sustento, é largá-lo e buscar outra profissão. À parte isso, existe o bom jornalista. Mas o bom jornalista é um homem doente que não consegue largar o jornalismo porque padece de tê-lo como vocação.

Parece haver uma distinção moral…

Parece haver uma distinção moral demasiado evidente entre os grandes argonautas do passado, que separa aqueles motivados por descobrir, e aqueles motivados por dominar. São impulsos muito diferentes, e que só aparentemente se coadunam. Para discerni-los, o mais das vezes, basta analisar os sucessos após o desembarque na terra encontrada. Causa estranhamento, portanto, que não fique tudo isso muito claro, possibilitando que a verdadeira glória seja conferida aos verdadeiros e bravíssimos heróis.