Se, tal como se dá no oriente, os escritores se formassem numa espécie de discipulado, o bom mestre diria de cara, logo no primeiro encontro com o discípulo: “Antes de tudo, temos de resolver o seu problema financeiro. Você precisa, caso não as possua, criar as condições para que nunca dependa, nem nunca espere dinheiro de nenhum de seus escritos”. Então, antes da gramática, antes da leitura dos clássicos, antes de qualquer outra coisa, o discípulo teria de exercitar a matemática: calcular quanto precisaria, mensalmente, para viver; calcular quanto precisaria juntar para ter essa renda, ou que tipo de trabalho poderia fazer, paralelamente à escrita, para reunir o montante ou extrair a tal renda mensal. Sem um plano financeiro muito bem definido, cujo triunfo significa a superação do problema do dinheiro, o descolamento de toda sorte de perturbações pecuniárias, todo escritor tende a acabar, com sorte, como Mário de Sá-Carneiro, com azar, como outros que não merecem menção. Cioran está certo: qualquer trabalho físico é preferível ao texto remunerado; a necessidade de dinheiro não pode contaminar o ato de escrever.