Talvez ainda não tenha sido escrita a obra que documenta a deterioração nas relações cotidianas em razão da justificável aversão às empresas, que cristaliza-se num reflexo repelente a qualquer tipo de abordagem inicial. O homem que, hoje, possuir um número de celular, e caminhar diariamente por avenidas comerciais metropolitanas, terá de desenvolver um escudo antiempresas; do contrário, passará boa parte do dia lhes dando atenção. E como estas, perspicazes, estão sempre desenvolvendo novos meios de “humanizar” o assédio, o escudo acaba, cedo ou tarde, voltando-se contra pessoas comuns. O fenômeno está aí, suas vítimas pululam, e mereceria louros aquele que justificasse objetivamente a resultante falta de educação.
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Tornou-se difícil imaginar qualidades morais…
Tornou-se difícil imaginar qualidades morais na retaguarda destes bem-sucedidos operadores do direito. Um homem comum, instintivamente, sente-se tomado de repugnância já nas primeiras palavras do discurso empolado que os passou a caracterizar. Seja qual for o papel exercido, é preciso forçar a mente a não considerar o exercê-lo como tomar parte no teatro cínico que se tornou um tribunal. Daí a dificuldade de imaginar que é possível conservar qualidades morais tendo sucesso no cumprimento dos protocolos modernos. Somente o crime organizado parece rodeado de semelhante podridão.
Uma dinâmica de relações toda particular…
Uma dinâmica de relações toda particular é responsável por fazer, com frequência, grandes personalidades tornarem-se desastres sociais. Socialmente, o triunfo exige qualidades específicas, que nada têm que ver com o nível de desenvolvimento pessoal. Há regras veladas, algumas das quais não se percebe sem cinismo, e não observá-las pode ser fatal. Com um grupo, não se pode estabelecer relações íntimas, e a sinceridade tem o seu valor relativizado. Deve-se agir sempre norteando-se por aquilo que convém, algo que, para alguns tipos, é simplesmente antinatural. Assim, muito do que às vezes choca nalgumas biografias não deveria causar grande impressão.
Os tempos de miséria cultural são os mais propícios…
Os tempos de miséria cultural são os mais propícios para imergir nas grandes épocas, nas grandes obras e nas grandes realizações. Isso porque tudo nelas estimula um interesse acentuado pelo contraste, não deixando dúvidas sobre onde mais convém direcionar a atenção. Em verdade, mesmo nos tempos mais prolíficos, é pequena a parcela do que subsiste, e portanto grande a parcela do que distrai. Há, é claro, um sentimento especial proveniente da novidade; mas, talvez, esse sentimento desvie a atenção de onde com muito mais proveito ela se poderia concentrar.