O livro mais importante ainda a ser escrito por um novo e necessário Gilberto Freyre descreverá o que se passou no Rio de Janeiro nos últimos cem anos. Tal obra, se levada a cabo com seriedade, será a mais significativa do século. É uma catástrofe humana talvez sem precedentes que separa o Rio de Janeiro de Machado de Assis do Rio de Janeiro dos anos 2000 e, ainda que se mostre escandalosamente, é difícil traçar a sucessão de fatos que a possibilitou. Para isso, seria preciso reunir documentos, e penetrar na história com uma consciência e argúcia incomuns, capazes de identificar as raízes psicológicas de um fenômeno cristalizado fisicamente. Alguém terá de fazê-lo. De uma destruição como essa, algo de muito importante se deve aprender. Possivelmente, o destino brasileiro depende do sucesso de tal realização.
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Quando nos deparamos com aquele que se gaba…
Quando nos deparamos com aquele que se gaba de algo que deveria envergonhá-lo, vemos o quão facilmente a esperteza se converte em vício. A ter semelhante qualidade, é melhor ser sempre enganado! Sem dúvida, não há constrangimento moral em ser vítima, nem em dar crédito àquele que não o merece. Se se perde algo, este algo vai-se sem deixar marcas na consciência, e o tempo jamais cobra o preço do remorso. Aquele que ganha, porém, perceberá que o que ganhou era pouco, e será mais feliz na medida em que a vileza que nutre não dê espaço para objeções — a felicidade plena, como se vê, só sendo possível a um animal.
Impressiona a capacidade humana…
Impressiona a capacidade humana de se livrar da impressão fortíssima causada pela morte. Quando experimentada, esta parece decisiva, parece haver a certeza de que sua vivacidade jamais deixará a memória. Mas, então, o tempo passa, e chega o dia em que é como se não tivesse ocorrido, e vive-se tranquilamente ignorando o que outrora pareceu uma lição. Esquecer é uma dádiva; mas apenas parcialmente: lembrar-se, às vezes, é garantir que o passado não tenha sido em vão.
Não há uma única notícia de jornal…
Não há uma única notícia de jornal que mereça ser impressa e guardada para o futuro, como se faz com toda a literatura de valor. Logo, como é possível que tantos leiam, e tantos se convençam da falsa importância atribuída aos jornais? O jornalismo nunca aproxima o leitor de nenhuma questão verdadeiramente importante. O que faz é afastá-lo de sua individualidade e metê-lo em questões absolutamente fora de seu campo de ação, que não interferem em sua vida, e quando interferem, é o tipo de interferência contra a qual nada se pode fazer. Uma contribuição prática, portanto, nula; para não dizer que, o mais das vezes, o jornalismo não inspira senão sentimentos ruins. O melhor é sempre desprezá-lo. E, dependendo dele para o próprio sustento, é largá-lo e buscar outra profissão. À parte isso, existe o bom jornalista. Mas o bom jornalista é um homem doente que não consegue largar o jornalismo porque padece de tê-lo como vocação.