O que a fama parece ter de mais nocivo…

O que a fama parece ter de mais nocivo é turvar o juízo tão sorrateira, tão imperceptivelmente que, mirado à distância, o famoso parece ter perdido a noção de si mesmo. Perante isso, a vaidade é um detalhe. Vem à mente mais uma vez o livro de Paul Johnson — livro que aparenta escrito para jamais se desgarrar da memória. Pensamos naqueles, e noutros aos quais a fama concedeu o seu abraço traiçoeiro, e vemos o quão destrutiva lhes foi para a consciência, o quão feia nos parece a manifestação do altíssimo conceito que tinham de si perante os demais. Às vezes, o mais da crítica corriqueira aos estoicos não passa de implicância temperamental: um Marco Aurélio, quando cotejado a um Rousseau, é muito mais do que um grande sábio.

É preciso ter o dia arruinado…

É preciso ter o dia arruinado por um imprevisto para que a mente se recorde de como são maravilhosos aqueles dias em que nenhum distúrbio acontece. Esquecemos de valorizar a placidez até que nos suba o impulso de vociferar contra a sorte pelos planos destruídos. Mas é inevitável… Que seja, pois, o mau dia útil para que se aprenda a dominar a raiva e aprender essa lição…

É muito bom livrar-se deste vício…

É muito bom livrar-se deste vício de admirar com restrições, o qual é, praticamente, não admirar. A admiração autêntica encerra o elogio com um ponto final. Mas fazê-lo é realmente difícil, porque, desconsiderando a vaidade, é realmente difícil acostumar os olhos a centrarem-se naquilo que é bom. Quando não se aprende a fazer isso, tira-se de tudo um gosto sempre mais ou menos amargo, e enfim não se aproveita o cunho edificante da verdadeira admiração.

Às vezes parece a revolta de uma estupidez colossal

Às vezes parece a revolta de uma estupidez colossal, e mesmo que busquemos justificá-la, percebemos haver nela um fundo de imaturidade do qual ela não consegue se despojar. Manifesta-se, sobretudo, a carência de um senso de proporcionalidade mínimo, capaz de perceber que o contraste entre sujeito e objeto frequentemente os coloca em planos distintos, cabendo ao lado mais fraco, se sensato, apenas a consciente integração.