Não espanta ver na literatura uma coleção inumerável de relacionamentos malsucedidos, visto que, na vida, é mesmo esse o caminho natural. O que talvez seja curioso é o engenho de determinados artistas para retratar as razões do inevitável fim, quando geralmente tudo acontece obedecendo a uma sucessão banal. Ah, Nietzsche, Schopenhauer, seus misóginos! Um relacionamento termina quando se inicia o ciclo da insatisfação. Deste, o primeiro sinal já é o fim anunciado, e não é preciso ser filósofo para perceber o porquê. A natureza do lado insatisfeito é invencível, invencível. Não interessam as circunstâncias, o passado, o tempo de relação: manifestada uma única vez a tendência inata, garante-se o fim. Porque, experimentada uma vez, a insatisfação pode até cessar momentaneamente, mas voltará para destruir. É como o felino selvagem que prova pela primeira vez a carne humana: a partir deste momento, o apetite antropófago jamais o deixará.
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Durante a rotina, é difícil recordar-se do excepcional
Durante a rotina, é difícil recordar-se do excepcional. Para relembrá-lo, a mente parece exigir silêncio e solidão. Assim que facilmente o esquece, e se não se esforça diariamente por preservar-lhe a imagem, deixa-se percebê-lo somente em instantes imprevistos, apartados, desconexos, desperdiçando o grosso dos benefícios de sua percepção. Mas é sorte que volte a lembrança e gere uma nova surpresa: assim se renova a esperança de que, desta vez, não se há de deixá-la desvanecer.
Grande parte do constrangimento verdadeiro…
Grande parte do constrangimento verdadeiro ao qual o homem se submete é eliminado tão logo ele aprenda a dizer não. Porque, em suma, o constrangimento não é senão um protesto interior, é o íntimo a manifestar desacordo para com as condições externas, o remorso pelo não engolido. Experimenta-o, portanto, todo aquele que se trai. Neste sentido, antes ser louco e ter coragem de assumir-se, negando com firmeza tudo aquilo que não convém.
É difícil imaginar um estado prolongado…
É difícil imaginar um estado prolongado em que a personalidade não seja perturbada por elementos conflitantes. Tais perturbações, de ativação externa ou interior, não podem ser totalmente vencidas. O que elas podem, decerto, é ser toleradas, analisadas, absorvidas. E a personalidade faz-se com quanto perdura após o confronto com elas. Meditando-se um pouco, às vezes causa indignação notar que frequentemente o choque é gratuito e prejudicial. Mas aí se percebe que a personalidade é um esforço, e vê-se o mérito em persistir-lhe na depuração.