É muito bom livrar-se deste vício de admirar com restrições, o qual é, praticamente, não admirar. A admiração autêntica encerra o elogio com um ponto final. Mas fazê-lo é realmente difícil, porque, desconsiderando a vaidade, é realmente difícil acostumar os olhos a centrarem-se naquilo que é bom. Quando não se aprende a fazer isso, tira-se de tudo um gosto sempre mais ou menos amargo, e enfim não se aproveita o cunho edificante da verdadeira admiração.
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Às vezes parece a revolta de uma estupidez colossal
Às vezes parece a revolta de uma estupidez colossal, e mesmo que busquemos justificá-la, percebemos haver nela um fundo de imaturidade do qual ela não consegue se despojar. Manifesta-se, sobretudo, a carência de um senso de proporcionalidade mínimo, capaz de perceber que o contraste entre sujeito e objeto frequentemente os coloca em planos distintos, cabendo ao lado mais fraco, se sensato, apenas a consciente integração.
A repetição é divertida por demonstrar…
A repetição é divertida por demonstrar que, anunciando-o, um problema não se resolve. E retorna de praxe sob novas formas, exigindo assim novo reconhecimento. É difícil, como é difícil manter a integridade no contato com o mundo! Se esse esforço é o que Goethe nomeava caráter, o mundo não pode ser encarado senão como um teste. E sem a prece, sem a meditação e sem a afirmação diária dos votos, degrada-se muito facilmente perante um mundo vencedor. Não há mais que dizer: a oração e a meditação são práticas altíssimas e indispensáveis. É distanciar-se delas, é distanciar-se das leituras construtivas, e o espírito se perde tão rapidamente quanto se fortalece quando delas se aproxima. Somente os tolos o podem negar.
Nelson Rodrigues gostava de repetir…
Nelson Rodrigues gostava de repetir que só um gênio seria capaz de tirar a inteligência brasileira do tédio. E enquanto viveu, percebe-se hoje, havia no Brasil uma inteligência passível de ser chacoalhada. Dir-se-ia, até, de que necessitava menos que um gênio para se movimentar. De lá para cá as obras perderam, se não força, efetividade. E para não repisar a ociosa crítica à inteligência inerte, o que salta aos olhos é a ausência de entusiasmo intelectual. Que há obras, que há autores, tem de os haver. Mas tornou-se dificílimo encontrá-los, quer pelo desinteresse generalizado, quer pelo falso interesse promovido em algumas obras. O resultado é haver barreiras e barreiras prejudicando o contato entre o autor e possíveis leitores. Estes, parece, ainda que tentassem encontrar o gênio, se renderiam aos obstáculos da procura.