Quase sempre, por piedade destas Notas…

Quase sempre, por piedade destas Notas, o comentário sai purificado do fato real contemporâneo que o motivou. Embora, sem dúvida, o efeito saneador seja palpável, talvez o comentarista pareça exagerar demasiado em seu radicalismo incontornável. Como, porém, é difícil comentar a atualidade! Daí que é preciso, às vezes, quebrar o protocolo. Arremataram num leilão em Nova Iorque, por mais de seis milhões de dólares, uma “obra” que consiste numa banana colada com fita adesiva numa parede. O comprador, dizem, adquiriu também o direito de replicar a “obra” quantas vezes quiser, e competirá a ele substituir a banana quando esta apodrecer. Que dizer? É, sem dúvida, uma manchete potentíssima; mas o que mais impressiona é ver nas milhares de matérias que não basta a obra, não basta o autor, não basta o preço, mas há plateia, há apreciadores, há divulgadores, há uma profusão vertiginosa de interessados! É demais! Cuidem-se bem estas Notas, pois o risco do contágio é real!

O espetáculo da publicidade

O espetáculo da publicidade é muitas vezes constrangedor e destrutivo, sendo preferível não acompanhá-lo. O que dele se ganha é pouco, e desmotiva sobremodo ver como se degradam os atores em disputas gratuitas, mas quase necessárias uma vez que a publicidade impulsiona tudo quanto há de mais negativo na dinâmica das relações sociais. Daí frequentemente destrói os bons e favorece os maus. É, em suma, algo desagradável de se ver…

É conhecida a trajetória que levou…

É conhecida a trajetória que levou o pensamento moderno a desconectar-se da realidade. Contudo, não deixa de espantar a força real e patente adquirida por alguns conceitos na mente moderna, muitos deles recém-fabricados, os quais se apresentam sem dizerem respeito a nenhuma realidade objetiva. Imaginar um filósofo a mergulhar-se e ocasionalmente perder-se em abstrações é algo natural; quando, porém, observa-se o grosso da sociedade a fazê-lo, isto é, o grosso da sociedade a raciocinar por conceitos autocontraditórios, por vezes escandalosamente vazios e impossíveis, é algo que se afasta da filosofia e escapa à normalidade. Aqui, só se pode compreender algo apoiando-se na psicopatologia e na engenharia social. Cria-se um conceito; este, fortemente estimulado, ganha vida própria, e então é disseminado como um vírus. Ninguém o compreende racionalmente; mas, ainda assim, consegue-se fazer com que as pessoas o sintam, com que desperte sentimentos e, portanto, com que seja efetivo. E brota, da histeria compartilhada, a validação impossível. O que mais escandaliza é ter-se tornado o processo comum e não escandalizar… Que transformação!

Talvez o maior problema educacional…

Talvez o maior problema educacional do mundo moderno, verificado especialmente nas metrópoles, é crescer o homem num ambiente quase isento de preocupações e necessidades imediatas, o que prejudica sobremaneira a sua percepção. O homem pré-histórico, por exemplo, via-se forçado a estar atento a ameaças constantes, a planejar o futuro para prevenir-se de intempéries, sabendo que o descaso poderia ser fatal. Se comia, sabia muito bem de onde veio sua comida, e também sabia o que era preciso fazer hoje para comer amanhã. Já o homem moderno, as imensas facilidades que o rodeiam não se acompanham da noção da dificuldade monstruosa para torná-las acessíveis. E assim ele cresce tomado por uma enganosa sensação de conforto, crendo a realidade garantida, sem a colaboração do ambiente lhe apontando como as coisas se dão.