É bem possível que a modernidade tenha…

É bem possível que a modernidade tenha conseguido ridicularizar para sempre o “ceticismo”, o “espírito investigativo” e o apreço à racionalização. Ao menos, já não inspiram o respeito que inspiravam no início do século passado semelhantes atitudes. O sujeito começa um relato, e faz questão de ressaltar, desde o início, as qualidades de sua mentalidade ocidental, que submeteu ao mais criterioso escrutínio tudo quanto vai adiante; durante o relato, interpola confissões de dificuldade em aceitar o relatado, em razão de sua racionalidade, etc., etc. Se, algum dia, tais trechos suscitavam admiração para com o orador, hoje, como dizer?, não fazem senão esticar um sorriso idêntico aquele que se estica nos lábios de alguém que se depara com uma manifestação supinamente infantil.

Incomoda o reconhecer-se medíocre…

Incomoda o reconhecer-se medíocre a ponto de nunca ter dado um passo temerário, tal como costumeiramente fizeram os homens notáveis, confiando inteiramente quer na providência, quer na própria intuição. Porque tais passos são os verdadeiramente decisivos, e aqueles que, uma vez tomados, produzem as melhores recordações. E quando falham, ora, quando falham o fazem como faz a indecisão e o medo, quando falham ainda guardam a possibilidade de correção.

Uma mísera bactéria, uma virose, uma lesão muscular…

Uma mísera bactéria, uma virose, uma lesão muscular são suficientes para derrubar totalmente a rotina, para colocar o sujeito mais saudável estirado numa cama a gemer. Só por isso, já se vê que não somos nada, e que o agradecimento deve necessariamente suceder aos dias bons. Quando abatidos por alguma moléstia, nem pensar conseguimos, senão em quando virá a recuperação. O tempo não passa, o desconforto não cede, e o consolo frequentemente só brota do pensamento de que poderia ser pior. E, decerto, poderia…

Vulgarizou-se a noção de que um jornalista…

Vulgarizou-se a noção de que um jornalista, para provar-se competente num programa de entrevistas, tem de colocar o entrevistado numa saia justa, tem de confrontá-lo, desmascará-lo, evidenciar nele os defeitos e contradições. O jornalista, portanto, se é competente, tem de exercer com maestria o papel de acusador. Se, por exemplo, pensa um pouco diferente, e acredita que sua função não é senão tentar extrair o melhor, o mais interessante do entrevistado, deixando-se ocultar na temática que deve sobressair, tem de renascer em outros tempos, pois não há espaço para tal postura no jornalismo atual. Um programa de entrevistas existe para estimular embates, interrupções e perguntas capciosas. E o entrevistado, para que o público o possa absolver ou condenar.