Alguns hábitos são imunes à condenação mental e, não importa o quanto sejam evitados, permanecem ali, latentes, como uma tendência que se manifestará na primeira ocasião. Nestes casos, não há como desarraigá-los senão por uma ação abrupta e violenta, que não costuma vir se não motivada por intensa aflição. Assim que acaba sendo necessário, e positivo, que se padeça toda a corrupção deles proveniente, até um ponto em que o desgaste é tanto, a repugnância é tanta, que a razão, aborrecidíssima e exacerbada, encontra a força necessária para dizer “nunca mais”.
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Relacionamentos ideais
Apenas pela obra, seria impossível imaginar quão afortunado foi Cioran em seu relacionamento com Simone Boué. Uma relação de uma vida, afetuosa, estável e profunda, com uma pessoa que compartilhava de interesses semelhantes, não se incomodava em levar uma vida discreta, modesta, e que, sobretudo, com sua presença, tornava-lhe os dias melhores, a vida melhor. Machado de Assis também pôde desfrutar um relacionamento semelhante, calcado no afeto, na comunhão de interesses e na admiração mútua. Ora, se algo há de certo é que um vínculo desta natureza é raríssimo, absolutamente anormal. É quase um milagre que duas almas assim consigam se topar no mundo, consigam se conhecer e tenham a oportunidade de descobrir o grau de afinidade que possuem. Isso, sim, é uma experiência única, especialíssima, da qual ficam privados a imensa maioria dos mortais.
É engraçado notar como são raras na prática
É engraçado notar como são raras na prática, e frequentíssimas no pensamento, as histórias de redenção. Isto é, o espírito inclinado ao sonho tende a imaginar semelhante arco para a sua vida, sem refletir se ele seria desejável ou, antes, se ele tem efeito prático benéfico. Porque o sonho, se não se realiza, ainda assim influi. Toda uma vida à espera deste grande momento! E, simultaneamente, toda uma vida perdida em sonhar… Há melhores enredos; mais modestos. Mas tal ambiguidade evidencia a complexidade da psicologia humana. A visualização é necessária, direciona o ato criador. Mas é preciso radicá-lo e radicar-se enquanto se vive, não se permitindo perder-se no ar. Resta, então, a realidade diária, sempre menos grandiosa do que se gostaria, mas na qual se pode escrever um enredo real.
Têm de ser gratos aqueles que desfrutam…
Têm de ser gratos aqueles que desfrutam de influências positivas que, quando não querem, ou não esperam, os atraem, lhes melhoram os dias e lhes causam um inesperado sentimento bom. Em contrapartida, nunca é excessivo o cuidado que devem ter aqueles que têm de lidar com influências opostas. Ceder a elas é, frequentemente, permitir-se arrastar a um abismo onde, num momento de descontrole, pode-se errar. Nunca se está tão distante da angústia quanto se imagina… E, afinal, quando se conhece com exatidão o fundo das coisas, pesa o fardo de que o desespero experimentado, em verdade, é resultado menos de influências do que de decisões.