Travá-las, nem tanto; mas é dificílima a arte de proteger as boas relações. Em verdade, a despeito de evidentemente haver níveis diferentes, não é preciso quase nada para que se estabeleçam. Um pouco de boa vontade, um pouco de cortesia, e elas se dão. Preservá-las neste nível saudável, contudo, exige sabedoria; especialmente para com aquelas que se mostram mais promissoras, mais autênticas e mais benéficas. A distância as aniquila, a proximidade também. Sem equilíbrio, entra em cena o assunto vulgar; e aí já não se pode evitar o pior. Antes vê-las definhar pela ausência, preservando-lhes a memória, do que testemunhar a infelicidade da deterioração!
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O escândalo é, sobretudo, triste
O escândalo é, sobretudo, triste. E muito mais penosa do que aquilo que o motiva é a miséria generalizada que costuma escancarar. Espraia-se, extrapola os próprios limites; estimula, traz à tona o que há de mais desprezível no ser humano, desde a repugnante maledicência àquela vergonhosa schadenfreude. Aquele que observa o fenômeno acaba com a certeza de viver entre porcos. As línguas assanhadas, o tom presumido, o prazer demoníaco de acusar: tudo isso provoca um sentimento de repulsa total.
O homem moderno pode desprezar como bobagens…
O homem moderno pode desprezar como bobagens os conselhos dos advogados das longas caminhadas, — numerosos e que congregam figuras desde os antigos até um Nietzsche ou um Taleb; — mas a verdade é que a vida se transforma sensivelmente, e para melhor, quando se cultiva o hábito de caminhar. Decerto, nem sempre se pode caminhar como aqueles homens, longa e despreocupadamente, fazendo da caminhada uma espécie de meditação em movimento, colocando em prática o solvitur ambulando; contudo, o homem que substitua o trânsito, o transporte público e os automóveis pela caminhada, deixando que esta, e os efeitos desta, participem de sua rotina, em vez e no lugar do inevitável desgaste proporcionado por aqueles, testemunhará que sua vida tornou-se significativamente melhor. Poucas coisas são tão seguras como esta: mover-se com o próprio corpo, pelo próprio esforço, na velocidade natural, todos os dias, muda por completo a disposição com que se acorda pelas manhãs.
O problema das relações é que…
O problema das relações é que, em geral, o que se ganha delas é pouco perante o que se tem de fazer para sustentá-las; quer dizer, assim é para as relações comuns, e quando tal não ocorre, nas raras vezes em que tal não ocorre, aí se encontrou uma relação de valor. Para esta, que se estabelece e se mantém com naturalidade, sem que as partes tenham de falsificar-se ou fingir temporariamente ser aquilo que não são, o esforço que se faz é para cultivá-la, não deixando que esmoreça pela distância, nem que se deteriore pela banalização. Ainda assim, há o risco de que acabe presa das circunstâncias, sujeita à dinâmica da vida, e portanto corre o risco de perecer. Mas basta uma única relação desta natureza, e muda-se completamente a ideia que se faz de viver.