O período de uma década costuma ser suficiente…

O período de uma década costuma ser suficiente para transformar um iniciante em especialista. Mas impressiona menos o conhecimento adquirido na disciplina ou ocupação do que a mudança ostensiva que o estudo costuma acarretar no que há em redor. Quanta coisa se transforma! O iniciante, dez anos depois, tornou-se outro; fisicamente é outro, e às vezes fica difícil associar o novo especialista a quem um dia foi. Alguém que não o conhecia já não encontrará aqueles traços que culminaram no estado atual. E alguém que o conhecia antes, mesmo que tente, mesmo que force, mesmo que não aceite a mudança, provavelmente não conseguirá fazer vibrar cordas antigas, e acabará constatando que elas — graças a Deus! — jamais voltarão a vibrar.

É atribuída a Churchill a famosa afirmação…

É atribuída a Churchill a famosa afirmação de que o sucesso é pular de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo. É uma frase bonita e profunda; em certa medida, até verdadeira, tal como aquela outra, segundo a qual para ter sucesso, basta não desistir. Ocorre, porém, o seguinte: o fracasso é uma experiência fundamental e engrandecedora; lidar com ele repetidas vezes transforma o caráter, amadurece. Mas a assimilação desta, como de outras experiências, é um ato consciente: é preciso deixar-se transformar por ela, e passar a agir em conformidade com a transformação. Assim, a experiência adquire sentido, torna-se útil, e cada fracasso fica para trás como um degrau de uma escada. Nem todos, infelizmente, incorporam-na assim. Há quem não aprenda com os fracassos, cuja vida se resuma a um ciclo em que os mesmos erros são seguidos das mesmas consequências, numa repetição degradante, que vai destruindo o que há em redor. No lugar da perseverança, tem-se a teimosia, e o resultado é muito triste de se ver…

A arte da vida é fazer dela conscientemente…

É preciso repetir ao infinito: a arte da vida é fazer dela conscientemente um processo transformativo no qual o sujeito se converte naquilo que tenciona ser. Para tanto, é necessário, primeiro, visualizar, depois, deliberar e, por fim, manter-se fiel ao plano de ação. É claro que jamais haverá uma execução perfeita, e o natural é que tudo contribua para que o plano não se realize. O natural é que, após assumido o voto, brotem obstáculos inumeráveis, manifestados de contínuo de onde jamais se esperou. E o natural é que muitas vezes se tropece, se caia, se traia aquele desígnio inicial. Mas é precisamente diante das dificuldades que ele se realiza, é precisamente em carregá-lo a despeito de tudo e, ainda que ciente das falhas e dificuldades, em não desistir.

Não é difícil perceber o que está em conformidade…

Não é difícil perceber o que está em conformidade ou contraria a própria natureza; difícil é deliberar não contrariá-la, e agir em conformidade com esta deliberação. O diabo está sempre à espreita; a vontade sempre ameaçada de trair-se. E embora, às vezes, tudo pareça muito claro, ninguém melhor que nós mesmos para nos convencer da pouca monta da falha iminente. Para cometê-la, basta deixar-se levar, algo que também facilmente queremos isento de culpa, mas que, afinal, sabemos não ser. A inércia é sempre leve, mas não conduz aonde se pode orgulhar de chegar.