É muito difícil imaginar um ateu que tenha sido tão infeliz a ponto de jamais, em toda a sua vida, ter se deparado com um exemplo de virtude modelar. Porque, sem dúvida, uma coisa é um ato isolado, e outra bem diferente é ter a virtude de tal forma entranhada na própria natureza que o ato sai frequente, espontâneo, irrefletido. E, se há algo que a experiência demonstra, é que tais naturezas estão sempre vinculadas à religião. Daí que o ateu, se tem alguma sinceridade, é forçado a se questionar se a religião não determina, em alguma medida, a capacidade de exemplificar a virtude através da personalidade. E se admite que gostaria de possuir ao menos um pouco daquilo que sobeja nos exemplos, passará por uma crise existencial. Infelizmente, por mais que queira, não conseguirá alterar as lições que a experiência lhe forneceu.
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É decerto necessário enxergar…
É decerto necessário enxergar, ou pelo menos tentar enxergar a existência como um roteiro que vai sendo escrito em capítulos carregados de sentido, relacionados a um todo cuja significação última só se pode conjeturar. Contudo, com fazê-lo rapidamente se verá que o roteiro planejado não sai conforme o plano, e que apenas se consegue, com sorte, preservar-lhe um pouco da diretriz. E aí que se tem de aceitar, a contragosto, toda sorte de obstáculos e desvios que podem parecer ilógicos, inúteis, não mais que desagradáveis. Com eles, porém, aprende-se a ter humildade e paciência. E tais virtudes, quando frutificam após décadas de prática, infundem a certeza de que nunca houve razão para praguejar.
Alguns hábitos são imunes à condenação…
Alguns hábitos são imunes à condenação mental e, não importa o quanto sejam evitados, permanecem ali, latentes, como uma tendência que se manifestará na primeira ocasião. Nestes casos, não há como desarraigá-los senão por uma ação abrupta e violenta, que não costuma vir se não motivada por intensa aflição. Assim que acaba sendo necessário, e positivo, que se padeça toda a corrupção deles proveniente, até um ponto em que o desgaste é tanto, a repugnância é tanta, que a razão, aborrecidíssima e exacerbada, encontra a força necessária para dizer “nunca mais”.
Relacionamentos ideais
Apenas pela obra, seria impossível imaginar quão afortunado foi Cioran em seu relacionamento com Simone Boué. Uma relação de uma vida, afetuosa, estável e profunda, com uma pessoa que compartilhava de interesses semelhantes, não se incomodava em levar uma vida discreta, modesta, e que, sobretudo, com sua presença, tornava-lhe os dias melhores, a vida melhor. Machado de Assis também pôde desfrutar um relacionamento semelhante, calcado no afeto, na comunhão de interesses e na admiração mútua. Ora, se algo há de certo é que um vínculo desta natureza é raríssimo, absolutamente anormal. É quase um milagre que duas almas assim consigam se topar no mundo, consigam se conhecer e tenham a oportunidade de descobrir o grau de afinidade que possuem. Isso, sim, é uma experiência única, especialíssima, da qual ficam privados a imensa maioria dos mortais.