Um sujeito que passou a vida inteira na cidade talvez não consiga abandoná-la, senão por um processo traumático e desconfortável. Curiosamente, é nela que se sente seguro, é nela experimenta a sensação de normalidade com a qual se habituou. Se lhe contassem, porém, não acreditaria: é preciso experimentar em primeira pessoa a percepção do entorpecimento ao qual seus sentidos foram submetidos ao longo dos anos. E isso só é possível num ambiente afastado de sua querida cidade. Vem à mente aquelas velhas crônicas de europeus que, andando com índios na selva, espantavam-se de seu faro quase sobrenatural, que, em verdade, consistia numa atenção muito mais refinada aos sentidos, e que pelos sentidos demonstrava ao europeu a veracidade da intuição. Fica, assim, o questionamento de até que ponto se estendem as consequências dessa evidente desatenção urbana.
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É bem possível que a modernidade tenha…
É bem possível que a modernidade tenha conseguido ridicularizar para sempre o “ceticismo”, o “espírito investigativo” e o apreço à racionalização. Ao menos, já não inspiram o respeito que inspiravam no início do século passado semelhantes atitudes. O sujeito começa um relato, e faz questão de ressaltar, desde o início, as qualidades de sua mentalidade ocidental, que submeteu ao mais criterioso escrutínio tudo quanto vai adiante; durante o relato, interpola confissões de dificuldade em aceitar o relatado, em razão de sua racionalidade, etc., etc. Se, algum dia, tais trechos suscitavam admiração para com o orador, hoje, como dizer?, não fazem senão esticar um sorriso idêntico aquele que se estica nos lábios de alguém que se depara com uma manifestação supinamente infantil.
Incomoda o reconhecer-se medíocre…
Incomoda o reconhecer-se medíocre a ponto de nunca ter dado um passo temerário, tal como costumeiramente fizeram os homens notáveis, confiando inteiramente quer na providência, quer na própria intuição. Porque tais passos são os verdadeiramente decisivos, e aqueles que, uma vez tomados, produzem as melhores recordações. E quando falham, ora, quando falham o fazem como faz a indecisão e o medo, quando falham ainda guardam a possibilidade de correção.
Uma mísera bactéria, uma virose, uma lesão muscular…
Uma mísera bactéria, uma virose, uma lesão muscular são suficientes para derrubar totalmente a rotina, para colocar o sujeito mais saudável estirado numa cama a gemer. Só por isso, já se vê que não somos nada, e que o agradecimento deve necessariamente suceder aos dias bons. Quando abatidos por alguma moléstia, nem pensar conseguimos, senão em quando virá a recuperação. O tempo não passa, o desconforto não cede, e o consolo frequentemente só brota do pensamento de que poderia ser pior. E, decerto, poderia…
