Impressiona a facilidade com que a maioria…

Impressiona a facilidade com que a maioria das pessoas adota teorias, crenças, visões de mundo, novidades de toda espécie e começam imediatamente a professá-las. Uma percepção profunda e instantânea da verdade proferida não parece justificar a maior parte dos casos. Que dizer, então? Parece tal reação só justificável naquele desacostumado a encontrar sentido nas palavras, que finalmente se coloca em contato com um discurso que compreende. Seria só isso? Talvez, também, algo de uma inclinação inata para a repetição. Mas se, algumas vezes, tal inclinação pode mostrar-se frutífera, noutras tantas ela só escancara uma suscetibilidade gigantesca à manipulação.

É realmente difícil conciliar a paz interior…

É realmente difícil conciliar a paz interior com as demandas diárias que, imprevisíveis, às vezes parecem não objetivar senão destruí-la. Daí que se impõe a articulação de um plano consciente para sustentá-la, cuja ação primordial é relembrar-se de contínuo de sua necessidade. Pois o refúgio, a paz interior são bem isto: necessidades. Do contrário, não se consegue a sobriedade no pensamento e muito menos a tranquilidade necessária para a justa reflexão.

Se parece incerto o futuro dos livros…

Se parece incerto o futuro dos livros de papel, para não dizer estarem eles, decerto, com os dias contados, não há como não proceder no raciocínio e imaginar as bibliotecas como relíquias de um passado distante. Formá-las e mantê-las, portanto, apenas colecionadores. Este simples fato, embora encubra o rol de facilidades conferidas ao leitor comum pela modernidade, não pode inspirar bons sentimentos. Um livro como uma antiguidade… Que dizer?

No Brasil, o normal é que o cidadão médio…

No Brasil, o normal é que o cidadão médio passe a vida adulta inteira sem ler uma única obra de ficção. Isso não pode ser normal, senão numa sociedade culturalmente morta. Nenhum escritor brasileiro, é seguro dizer, exerce hoje a mais insignificante influência na sociedade, a despeito do que o nome de algumas ruas e monumentos pode sugerir. Não há uma única obra literária cujos personagens, ou cuja lição moral, estejam presentes no imaginário coletivo, e portanto o fato mais assombroso deste Brasil de hoje é não haver nele nenhuma base cultural que sirva de alicerce e patrimônio comum. É uma tragédia não somente educacional, mas humana.