É difícil dimensionar quão medíocre…

É difícil dimensionar quão medíocre tem de ser o homem para não apenas adequar-se, mas tomar como sua uma ideia concebida por meia dúzia de burocratas, que confronta diretamente aquilo que é verdadeiramente seu. Uma ideia, às vezes inédita na história humana, às vezes grosseiramente estúpida, inequivocamente disparatada e infamante, cuja aplicação envolve uma drástica e súbita mudança comportamental, cujo efeito prático é aviltar o passado e romper uma longa e honradíssima tradição, mas uma ideia que mesmo assim é engolida! Tal sucesso parece denotar que uma sociedade até pode ser destruída fisicamente por um agente externo, mas corromper-se, isso só se permite voluntariamente.

Às vezes é muito difícil detectar a falsidade…

Às vezes é muito difícil detectar a falsidade quando se analisa apenas palavras; mas é sempre possível presumir quanto ganha o emissor em proferi-las. Noutras palavras: é sempre possível dimensionar-lhes o impacto em seu interesse pessoal. Nada disso é novidade; contudo, este exercício pouco praticado é ótimo para classificar aqueles que demandam cautela, e aqueles em cuja autenticidade do discurso se pode confiar.

Talvez não haja esforço que possibilite…

Talvez não haja esforço que possibilite a nós, modernos, uma real compreensão do homem medieval. Todo ele é-nos intrincado, mas parece o seu traço mais incompreensível ser aquele que Huizinga assim descreve:

No espírito medieval, todos os sentimentos mais puros e elevados foram absorvidos pela religião, enquanto os impulsos sensuais e naturais, deliberadamente rejeitados, tiveram de se rebaixar ao nível de uma mundanidade pecaminosa. Na consciência medieval coexistem, por assim dizer, duas concepções de vida: a concepção devota, ascética, que se apropria de todos os sentimentos morais, e a concepção mundana, toda ela deixada ao diabo, que se vinga terrivelmente. Se uma das duas predomina por completo, então surge o santo ou o pecador irrefreado; mas em geral elas se mantêm num equilíbrio instável, com oscilações da balança. Veem-se pessoas apaixonadas, cujos pecados em flor por vezes fazem sua devoção transbordar e explodir ainda mais violentamente.

É uma tensão muito mais forte, que embora extreme o vício, torna mais autêntica a virtude que se lhe contrapõe. É um comportamento tão apaixonado, e sobretudo tão sincero, que nos obriga a admitir que o homem moderno, comparado ao medieval, quiçá se destaque pela “moderação”, mas com certeza por um assombroso cinismo.

É sempre um grande desafio equilibrar…

É sempre um grande desafio equilibrar as tensões conflitantes quando uma tendência predominante se manifesta no espírito, quer compelindo à exteriorização, quer à interiorização. A personalidade frequentemente escancara esta dificuldade, cujo problema maior não é seguir ou afastar-se da tendência inata, mas lidar com a oposta, a qual frequentemente se apresenta como dever. Dever, então, agir contra a própria natureza, fazer de contínuo o mais penoso, sob ameaça constante de condenação pela consciência! Talvez seja esta a maior utilidade das biografias: registrar os rebentos deste conflito na vida daqueles para os quais viver se contrapõe a obrar.