O homem recluso, acostumado ao silêncio…

De Zimmermann, em minha tradução francesa:

On a dit avec raison que les savants astreints à une existence solitaire, et occupés de graves travaux, ne peuvent avoir ni la gaieté d’esprit, ni l’élégance de manières, ni la vivacité d’entretien des personnes qui vivent habituellement dans le monde et qui en connaissent tous les usages.

É claro que um homem de hábitos tão raros e tão contrastantes com aqueles dos homens comuns se mostrará, pelo próprio comportamento, essencialmente diferente. O homem recluso, acostumado ao silêncio e à meditação profunda, molda-se a encontrar progressivamente inóspita a agitação dos ambientes comuns. É natural que perca completamente essa expansividade, essa sociabilidade ordinariamente tida como “boas maneiras”. Estas, aliás, não podem senão causar-lhe repulsa e espanto. Tudo se resume a uma questão de hábitos: agrade-lhe ou não, são estes que definirão, com o tempo, aquilo que um homem é.

Vigny e eu

Muito do que Vigny diz de si mesmo eu poderia atribuir a mim sem alterar uma vírgula. Tenho, como Vigny, esse “besoin éternel
d’organisation”, sem o qual não me movo; sou, como ele, “seul”, “exempt de tout fanatisme”; também a mim a vida cuidou dotar-me desta “sévérité froide et un peu sombre” que não é inata; quanto ao método criativo, identicamente concebo, planejo, moldo e deixo esfriar antes da execução final; poderia também dizer com toda a minha alma que “l’indépendance fut toujours mon désir”; compartilho, ainda, a repugnância de Vigny às futilidades, fruto de alguém que, estando “toujours en conversation avec moi-même”, encontra no estorvo das interrupções sempre motivo para frustrações… e a lista poderia continuar. Vigny, contudo, faz a nota: “Aimer, inventer, admirer, voilà ma vie”. Ah, Monsieur! Lamentavelmente, estas vossas palavras já não posso subscrever… Não faz mal: Deus me deu o senso de humor.

Nesta era em que há mais vozes que ouvidos…

Nesta era em que há mais vozes que ouvidos, mais livros que leitores e mais facilidade que vontade de aprender, é improvável que se erga uma verdadeira autoridade intelectual e alcance o prestígio de um Voltaire, de um Goethe ou de um Walter Scott. A atenção que angariasse para si seria, no máximo, passageira, e portanto dificilmente gozaria do sólido e duradouro reconhecimento que grandes intelectuais gozaram noutros tempos. Isso não mostra senão uma característica desta época de atenção difusa e bombardeada ininterruptamente. É temível o que pode provir de uma época não só carente de autoridades verdadeiras, mas guiada por falsas; porém, de toda forma, o que se há de concluir é que, ao intelectual, tudo se tornou consideravelmente melhor.

A “popularização” da ciência

Burckhardt pergunta, em suas Considerações sobre a história universal, em que resultaria a inesperada “popularização” da ciência que se deu no século XIX. Cá estamos… A ciência a que Burckhardt se referia já não é a mesma. Esta foi aviltada a partir do momento em que deixou-se despegar da nobre finalidade e permitiu-se aplicada a interesses vis. Desvirtuada numa espécie de autoridade que contraria a humildade característica da investigação verdadeiramente científica, profanada como instrumento político, servil à ditadura do dinheiro, já não se pode mirá-la com a admiração de outros dias. A própria arena científica, ainda que a isolemos de influências externas, está corroída por conflitos de interesses comparáveis aos que se dão na política. Aliás, que é que não se corrompeu após a ascensão “popular”? Mesmo Burckhardt, com sua nobre e radical repulsa à cultura do money-making e à plutocracia ainda em gestação, se espantaria ao ver como, hoje, tornou-se perigoso ignorar os impactos sociais e econômicos de uma possível investigação científica. O resumo: nada resiste a uma “popularização”.