Estupor perante a destruição

Às vezes parece vivermos numa época não de decadência, mas de estupor perante a destruição cultural já consumada. É como se estivéssemos em meio a escombros, perplexos e sem ação. Foi-se o que havia de seguro, de estável, de “certo”, foi-se o norte e o bom; as palavras foram esvaziadas de sentido e os critérios desconstruídos, ao mesmo tempo que o subversivo foi colocado num pedestal. Culturalmente, destacam-se despautérios que, após um instante de brilho, são logo esquecidos e substituídos por outros; e nessa sucessão em que nada perdura, senão o contrassenso, parece não haver nada de firme para se apoiar.

Embora seja a censura uma crueldade indescritível…

Embora seja a censura uma crueldade indescritível, e embora seja ela eficacíssima a curto e médio prazo, por algum motivo ela não parece forte o suficiente para perdurar. Por isso, há de se notar que há limites mesmo à censura mais plena. A censura não pode, por exemplo, esconder-se totalmente: sempre haverá ao menos um par de olhos capaz de identificá-la. E esse par de olhos, ainda que amordaçado e punido, terá consigo algo que a censura não poderá corromper. Nisto, é também a censura traiçoeira ao censor, o qual, por mais astuto e metódico que seja, jamais poderá ocultar o seu crime, que será fatalmente escancarado pelo tempo, posto que seus efeitos são demasiado evidentes. Assim temos que o censor, por mais deliciosos que lhe sejam os benefícios momentâneos, terá de encarar o fato de que são estes momentâneos, e eterna a pecha de canalha que irrevogavelmente colou ao seu nome.

É curioso que sejam as leis amplamente respeitadas

É no mínimo curioso que sejam as leis amplamente respeitadas, quando são elas feitas pelas mesmas figuras que, de quatro em quatro anos, vemos sorridentes em outdoors, em propagandas eleitorais e que, esporadicamente, vemos no noticiário policial algemadas e presas por protagonizarem escândalos. Quer dizer: as leis, concebidas em meio à mesma lama responsável por direcionar alguns desafortunados à cadeia, são e devem ser respeitadas como constituíssem um imperativo moral. Sem dúvida, há algo cômico nisso tudo, e faz rir a obscenidade com que o rebanho é escravizado e mantém-se passivo, quando esta pornografia chamada direito deveria mais sensatamente inspirar um estado perene de revolta e insubmissão.

Ter uma “causa” e querer impô-la

Há uma diferença notável entre ter uma “causa” e querer impô-la ao resto dos homens. É possível dizer, a princípio, ser tal diferença o caráter. Porém, também se pode dizer que, mais seja verdadeiro o sentimento inspirado pela “causa”, mais sejam seus “benefícios” claros na mente de quem a possui, mais será natural o impulso de querer que outros homens também a tenham, ou a “desfrutem”. Aqui, pois, chegamos à imposição. Não há como interpretá-la, independentemente de como se dê sua prática, ou de como esteja alicerçada, senão como uma violação primária, um ataque direto à liberdade do indivíduo. A imposição nunca será nobre e, após perpetrar-lhe a tirania, já não se poderá chamar homens livres aqueles que a sofreram.