Se grande parte da personalidade é composta…

Se grande parte da personalidade é composta de traços involuntários, ou melhor, de traços que se estabelecem pelo hábito, quanto mais se vive, mais a personalidade representa e escancara o indivíduo em sua essência. Assim, não é exagero afirmar que, num idoso, a personalidade talvez lhe resuma a vida. É por isso que a generosidade e a simplicidade são encantadoras quando se manifestam espontâneas e sinceras numa natureza intelectualmente refinada. Por elas, temos o retrato do indivíduo: sua postura evidencia o grau do seu mérito e, a menos que estejamos cegos a ponto de não notá-lo, ficamos inteiramente preenchidos de um sentimento de admiração. Quanto à personalidade, de fato, há façanhas só possíveis na velhice, quando a virtude se cristaliza como fruto da experiência de uma vida inteira, e aí parecem-nos enfim brilhar como pérolas aqueles enigmáticos para quês.

Será um belo dia aquele em que a ciência…

Será um belo dia aquele em que a ciência ocidental admitirá a validade das pseudociências transmitidas, de geração para geração, há muitos séculos no oriente. Será um duríssimo golpe na presunção resultante do avanço da técnica, e provavelmente fará com que se estabeleça uma nova — e talvez muito velha — postura para com o desconhecido e para com o irracional. Será, enfim, um retorno àquela humildade sem a qual o homem é inapto a perceber a justa medida das coisas.

Algo que a modernidade facilitou…

Algo que a modernidade facilitou de forma extraordinária é a possibilidade de um ninguém, unicamente pelo mérito e pelo esforço, avançar e ascender. É um privilégio notar que alguém que leve a cabo seriamente um estudo, e atinja proeminência na área a que se dedicar, possui hoje uma infinidade de meios para divulgar o conhecimento conquistado e, mais, para viver de sua divulgação. Quer dizer: num ambiente praticamente sem limitações, é possível que o estudioso dedique-se àquilo por que se interessa sem depender de padrinhos. Neste quesito, não há como negar o benéfico e ostensivo efeito emancipatório da modernidade.

É sempre comovente quando notamos…

É sempre comovente quando notamos o nascimento de um espírito deslocado, seja no tempo ou no espaço. Quando o observamos, distanciados, ficamos com a sensação de uma total injustiça, de uma pena excessiva e injustificada por um crime não cometido, de uma tortura que só parece obstruí-lo senão puxá-lo para trás. E comove notar que um pouco, um nada que a maioria tem, lhe tornaria a existência significativamente mais agradável. Contudo, quando lhe analisamos a trajetória e buscamos a motivação para cada um de seus passos, percebemos que estão todos eles enraizados neste deslocamento que, profundamente sentido, gera um desconforto que impele a ação. É um desconforto, portanto, produtivo, que necessita expressar-se e necessita agir a fim de atenuar o sentimento; é um desconforto que, em suma, não permite a acomodação.