É notório que as chamadas predisposições…

É notório que as chamadas predisposições temperamentais se apresentam quase sempre ancoradas na experiência, retirando, portanto, boa parte do sentido que parecem sugerir. Muito do que diz a psicologia sobre o condicionamento ao meio e seus impactos a longo prazo é decididamente verdadeiro, e é indiscutível que o ambiente interfere e molda, sendo seu efeito proporcional ao tempo de exposição e intensidade do contato. Assim, queira-se ou não, dele se carrega algo e, exatamente por isso, o distanciar-se é fundamental em caso de que esse algo se incline ao indesejável. Bloquear-se e criar barreiras psicológicas para se lhe evitar a influência é possível e, em casos extremos, imprescindível; mas uma experiência, ainda que dela se extraia frutos, não pode, a despeito de quanto se queira, ser simplesmente apagada.

Uma pessoa com alguma educação…

Uma pessoa com alguma educação não interrompe outra ao telefone; mas interrompe, sem recear por um instante, uma que está a pensar, tão logo tenha o menor e mais insignificante impulso comunicativo. Disso só se pode concluir que o pensamento é uma doença, e que pessoas normais não estão acostumadas a ele; caso contrário certamente saberiam que um “com licença” ou um “me desculpe” não amenizam em absolutamente nada o violento e brusco corte que operam no fluxo das ideias, que se vão podendo jamais retornar. Desse incomparável inconveniente não cuidaram nem a moral, nem as convenções: não há freios de nenhuma espécie para aquele que se sente no desejo de abordar um desconhecido; muito pelo contrário, é o desconhecido que parecerá mal-educado caso não conceda atenção àquele que a exige. E, finalmente, quanta satisfação ao vê-lo pela primeira vez notado por Karl Kraus! É assunto para um livro inteiro e, mesmo assim, parecem todos acostumados a ouvir novidades quando vão à barbearia; a serem abordados insistentemente por qualquer um que se apresente com o intuito de vender. Muito bem, muito bem!

É certo que os últimos dois séculos acostumaram…

É certo que os últimos dois séculos acostumaram o homem a uma carga de trabalho impensável noutros tempos. Disso percebemos que, no que tange à literatura, obras de grandes autores tomaram maior vulto: hoje, o natural é que escritores sérios sejam como máquinas de escrever e produzam, caso o tempo permita, dezenas de volumes. Que concluir? Primeiramente, que talvez a fecundidade tenha-se tornado vulgar, por ser quase uma exigência contemporânea; em segundo lugar, que, em decorrência disso, talvez já não se possa associar fecundidade ao velho estro, visto que a primeira tornou-se como automatizada pelo espírito deste tempo; finalmente, que talvez se haja de admitir que tal fecundidade acarrete um vício — vício este que, mais do que nunca, é preciso cuidado para evitar…

Se é ostensivamente verdadeiro…

Se é ostensivamente verdadeiro que as universidades brasileiras se tornaram instrumentos de doutrinação ideológica, e consequentemente os diplomas atestados de submissão, não há como almejar solução para a miséria intelectual em que o país se meteu que não a total ridicularização e o total desprezo às universidades e aos títulos acadêmicos por parte de uma intelectualidade real que emerja de forma independente e se contraponha ao escárnio que foi feito de forma maliciosa e incrivelmente bem-sucedida no país. Não há saída que não passe pela destruição metódica e completa deste império espúrio que foi levantado e usurpou a finalidade da educação superior. É claro, é claro… o mais provável é que nada disso aconteça. E continuaremos bem…