A vingança do homem comum

O que melhor caracteriza a modernidade é a vingança do homem comum sobre o homem de gênio. Em todas as esferas, são seus interesses que predominam; para onde quer que se volte os olhos, é sua face que se encontra em destaque. A vitória é completa. E exatamente disso deriva o sufocamento da cultura e das altas aspirações, que ora encontram uma hostilidade quase invencível para germinar. O homem comum as não tolera, e bate nas portas como missionário a fim de doutrinar. Talvez nunca tenha sido tão difícil e tão necessário um esforço para ignorá-lo e não se permitir contaminar.

O Brasil é o país onde intelectuais verdadeiros…

Destacadamente, o Brasil é o país onde intelectuais verdadeiros, quando não invejados, — manifestação rara só possível naqueles que os reconhecem, — são de praxe ridicularizados. A índole do povo repugna o estudo sério. Somando-se a este fato uma infinidade de outras precariedades, temos que as circunstâncias em que vigoraram os grandes intelectuais brasileiros, na melhor das hipóteses, foram-lhes inimigas, ainda que não agressivamente, mas incentivando-os a tomar outra direção. O mais frequente, porém, é um cenário nocivo a um nível inimaginável à maior parte dos pensadores mundiais. E vemos que, no Brasil, por algo que parece mais que uma coincidência, quase todos os grandes intelectuais provieram de berços modestos e, num esforço individual e solitário, triunfaram não só intelectualmente, mas contra a própria realidade. Sem dúvida, tal é digno de grande reconhecimento, e o desprezo que os envolveu antes e frequentemente depois da morte é algo que não faz senão aumentar-lhes o valor.

Há entre o misantropo e o seu tempo…

Há entre o misantropo e o seu tempo uma distância intransponível que se revela a cada tentativa de aproximação. O misantropo que abra um romance contemporâneo dificilmente conseguirá finalizá-lo, posto que será tomado gradativamente de um sentimento de repulsa que o forçará atirá-lo para longe, caso não queira submeter-se a uma tortura da qual nada tem a ganhar. De quem é a culpa? Certamente, não do romancista, que o mais das vezes não está senão cumprindo parte de sua obrigação para com o futuro ao descrever minúcias e particularidades. Mas não desce! Não há solução! Sua obra a cada passo, a cada cena suscitará sentimentos ruins que uma hora sufocarão o animal inadaptado, e este terá de abandoná-la, se possível esquecê-la. O misantropo é alguém deslocado no espaço e no tempo.

O início da vida adulta

O início da vida adulta é uma fase crítica porque o jovem se vê pressionado a tomar decisões de consequências duradouras sem que se tenha decidido com firmeza sobre elas ou, nalguns casos, sem que tenha personalidade o suficiente para assumir as próprias decisões. A isso soma-se o caso frequente de dependência financeira, que acaba acarretando uma submissão a conselhos e opiniões. Assim, quase sempre cede à suposta “sabedoria dos mais velhos”, quando esta em verdade é-lhe útil apenas enquanto esteja em conformidade com aquilo que verdadeiramente deseja para si. Do contrário, tais conselhos serão somente o empurrão ao abismo que lhe causará o mais severo arrependimento que já experimentou — arrependimento, porém, necessário para que amadureça, e perceba só valer a pena uma vida em que as consequências sofridas são frutos de escolhas pessoais. O divertido, em suma, é que na maioria dos casos bastariam uns poucos anos a mais para que as decisões fossem tomadas de maneira mais sensata; mas não, por algum motivo é preciso tomá-las precipitadamente, talvez por ser o próprio erro fundamental.