O que arrasa o orgulho dos acadêmicos

O que arrasa o orgulho dos acadêmicos é ter de constatar, contrariados, que uma vida dedicada aos estudos fora da academia é infinitamente mais proveitosa à aquisição de conhecimento em praticamente qualquer área. É constatar que, não havendo de limitar-se às diretrizes estipuladas pela academia, o estudante emprega o tempo muito melhor. Com os anos, os resultados tornam-se escandalosamente evidentes e evidenciam, também, a natureza da motivação inicial.

Essa repulsa instintiva…

Essa repulsa instintiva, essa irracional contrariedade que se experimenta em relação a algo ou alguém frequentemente se prova mais razoável que o mais minucioso dos raciocínios. É muito curioso haver essa manifestação, talvez motivada pelo mais atávico instinto de sobrevivência, que gera um alerta a respeito daquilo que não se tem motivo para desconfiar. E então, repetidas vezes, segui-la para mais tarde aliviar-se do erro não cometido — e impressionar-se desta misteriosa capacidade…

É muito peculiar esta tendência comportamental…

É muito peculiar esta tendência comportamental do homem para com seus contemporâneos: ao mesmo tempo que não se impressiona, quando não despeita o verdadeiramente extraordinário, abona e encomia tudo quanto compõe a faixa que parte do medíocre ao verdadeiramente desprezível. Daí que nunca se pode confiar num julgamento coevo a respeito de nada, sob o risco de embarcar nas mais escandalosas fraudes e injustiças. Sempre é preciso aguardar que a história, despojadamente, coloque cada coisa em seu devido lugar.

O direito de incomodar

Na sociedade brasileira, o direito de incomodar prevalece sobre o direito de não ser incomodado, este fundamental para o convívio pacífico no mundo civilizado. No mundo civilizado, aquele que incomoda perde imediatamente a razão e é condenado pelo senso comum; já na selva brasileira, ai daquele que julgar-se no direito de não sofrer distúrbios frequentes! Diz-se que, em Tóquio, o que mais espanta é o silêncio que permeia a grande movimentação das avenidas, a mudez das construções enormes, o ruído que não emana do comércio. Um cão brasileiro, em Tóquio, estaria destinado a enlouquecer.