Uma pessoa com alguma educação não interrompe outra ao telefone; mas interrompe, sem recear por um instante, uma que está a pensar, tão logo tenha o menor e mais insignificante impulso comunicativo. Disso só se pode concluir que o pensamento é uma doença, e que pessoas normais não estão acostumadas a ele; caso contrário certamente saberiam que um “com licença” ou um “me desculpe” não amenizam em absolutamente nada o violento e brusco corte que operam no fluxo das ideias, que se vão podendo jamais retornar. Desse incomparável inconveniente não cuidaram nem a moral, nem as convenções: não há freios de nenhuma espécie para aquele que se sente no desejo de abordar um desconhecido; muito pelo contrário, é o desconhecido que parecerá mal-educado caso não conceda atenção àquele que a exige. E, finalmente, quanta satisfação ao vê-lo pela primeira vez notado por Karl Kraus! É assunto para um livro inteiro e, mesmo assim, parecem todos acostumados a ouvir novidades quando vão à barbearia; a serem abordados insistentemente por qualquer um que se apresente com o intuito de vender. Muito bem, muito bem!
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É certo que os últimos dois séculos acostumaram…
É certo que os últimos dois séculos acostumaram o homem a uma carga de trabalho impensável noutros tempos. Disso percebemos que, no que tange à literatura, obras de grandes autores tomaram maior vulto: hoje, o natural é que escritores sérios sejam como máquinas de escrever e produzam, caso o tempo permita, dezenas de volumes. Que concluir? Primeiramente, que talvez a fecundidade tenha-se tornado vulgar, por ser quase uma exigência contemporânea; em segundo lugar, que, em decorrência disso, talvez já não se possa associar fecundidade ao velho estro, visto que a primeira tornou-se como automatizada pelo espírito deste tempo; finalmente, que talvez se haja de admitir que tal fecundidade acarrete um vício — vício este que, mais do que nunca, é preciso cuidado para evitar…
Se é ostensivamente verdadeiro…
Se é ostensivamente verdadeiro que as universidades brasileiras se tornaram instrumentos de doutrinação ideológica, e consequentemente os diplomas atestados de submissão, não há como almejar solução para a miséria intelectual em que o país se meteu que não a total ridicularização e o total desprezo às universidades e aos títulos acadêmicos por parte de uma intelectualidade real que emerja de forma independente e se contraponha ao escárnio que foi feito de forma maliciosa e incrivelmente bem-sucedida no país. Não há saída que não passe pela destruição metódica e completa deste império espúrio que foi levantado e usurpou a finalidade da educação superior. É claro, é claro… o mais provável é que nada disso aconteça. E continuaremos bem…
Não há modelos humanos mais desprezíveis…
Não há modelos humanos mais desprezíveis do que estes que, deparando-se com uma inferioridade real ou imaginária, fazem questão de humilhar. Faltam palavras… Tal manifestação de má índole não se dá senão em espíritos vis, merecedores do desprezo mais pleno em todas as esferas. A satisfação que colhem desta arrogância, que parece elevar-lhes o senso de importância, deveria, num mundo justo, ser sucedida de uma humilhação tão completa que proibisse, até o fim da vida, a mera ideia de que talvez pudessem ser em algo superiores a alguém.