É interessante observar o fenômeno…

É interessante observar o fenômeno em curso na educação superior. Na mesma velocidade em que as universidades vão se resumindo a fábricas de diplomas e, no caso da área de humanas, em ferramentas de doutrinação política, aumenta-se a procura por professores independentes, que lecionam aquilo que querem, aquilo pelo que são apaixonados e julgam fundamental, sem preocupar-se com diretrizes delineadas pelo órgão que seja, nem sobre se alongar com aquilo que os outros dizem importante. Assim, distinguimos claramente dois grupos: os sedentos por diplomas, e os sedentos por aprender. É difícil presumir que chegará o dia em que cursos lamentáveis como estes de humanas serão tidos universalmente como obsoletos, mas parece inevitável que, num futuro próximo, alguém capte tal tendência e funde uma instituição de ensino de grande porte que reúna tais professores e tais alunos, uma instituição que resgate a finalidade do ensino e, fornecendo ou não diplomas, porte-se da maneira que todas se deveriam portar.

A agressão à liberdade de pensamento

É traço inconfundível das épocas tirânicas a agressão à liberdade de pensamento, que se manifesta sob a forma detestável da censura. Este delírio de submeter as almas a uma uniformidade felizmente jamais se concretizou, embora a violência empregada para concretizá-lo tenha alcançado sempre resultados patentes. A censura ideológica é um crime, injustificável sob qualquer ponto de vista; é uma vergonha em todos os séculos e uma condenação dos próprios valores em que se julga apoiar. Por isso a tentativa hodierna de curvar autores do passado à ideologia vagabunda que dominou o pensamento ocidental, submetendo as universidades e os meios de comunicação, será uma mácula permanente. Somente canalhas incuráveis encontram qualquer coisa de minimamente razoável em censurar aqueles que, mortos, não se podem defender; em lhes adulterar as palavras, falsificá-los e vender como deles linhas que jamais escreveram. Além disso, não há nada a se dizer.

A revolta de Proudhon

Outra de Proudhon:

L’autorité ne fut pas plutôt inaugurée dans le monde qu’elle devint l’objet de la compétition universelle. Autorité, Gouvernement, Pouvoir, Etat — ces mots désignent tous la même chose —, chacun y vit le moyen d’opprimer et d’exploiter ses semblables. Absolutistes, doctrinaires, démagogues et socialistes tournèrent incessamment leurs regards vers l’autorité, comme vers leur pôle unique.

A revolta de Proudhon, a veemência e o ardor que lhe saltam como faíscas das linhas é assaz compreensível: é muito simples imaginar uma sociedade que não se resuma em opressores e oprimidos; contudo, é espantoso constatar que a opressão, seja com quais vestes se apresente, não faz senão consolidar-se moldando-se às propensões vigentes. E ver que, ainda que esteja o óbvio escancaradamente exposto, a maioria não o enxerga, tomando parte ativa na perpetuação daquilo que lhe contraria frontalmente não somente os interesses, mas a própria dignidade.

Ser governado

De Proudhon:

Être GOUVERNÉ, c’est être gardé à vue, inspecté, espionné, dirigé, légiféré, réglementé, parqué, endoctriné, prêché, contrôlé, estimé, apprécié, censuré, commandé, par des êtres qui n’ont ni le titre, ni la science, ni la vertu… Être GOUVERNÉ, c’est être, à chaque opération, à chaque transaction, à chaque mouvement, noté, enregistré, recensé, tarifé, timbré, toisé, coté, cotisé, patenté, licencié, autorisé, apostillé, admonesté, empêché, réformé, redressé, corrigé. C’est, sous prétexte d’utilité publique, et au nom de l’intérêt général, être mis à contribution, exercé, rançonné, exploité, monopolisé, concussionné, pressuré, mystifié, volé ; puis, à la moindre résistance, au premier mot de plainte, réprimé, amendé, vilipendé, vexé, traqué, houspillé, assommé, désarmé, garrotté, emprisonné, fusillé, mitraillé, jugé, condamné, déporté, sacrifié, vendu, trahi et, pour comble, joué, berné, outragé, déshonoré. Voilà le gouvernement, voilà sa justice, voilà sa morale !

A eloquência de Proudhon é destas que convence um monge a comprar um fuzil. A meticulosidade na exposição do óbvio não pode admitir senão o riso como resposta. Que dizer? Como refutá-lo? Proudhon, que não era um homem comum, tinha olhos para enxergar a exploração tirânica que se tornou normalidade social, tinha olhos para ver o estado vexatório de submissão em que o cidadão comum se permitiu viver. E então? Perdura o mito, ora gravado na pedra, de que é impreterível que todos assintam em ser ovelhas e que uns poucos sejam lobos. É assim e só assim que a “sociedade” pode funcionar. Um milímetro fora disso é o caos e a desordem: todos perdem e, portanto, o melhor é aceitar em silêncio a necessidade de que uns mandem e outros obedeçam.