É difícil dimensionar o quão desastroso…

É difícil dimensionar o quão desastroso foi este último Acordo Ortográfico, e quanto mais se aprofunda nas minúcias destas novas regras, ou melhor, no que deixou de existir na língua após a sua aplicação, mais se lamenta e mais se revolta. A questão deveria se encerrar nas motivações do acordo, e suscitar gargalhadas diante da incompetência e ilegitimidade das “autoridades” que arrogaram a si mesmas o direito de decidir. Contudo, a estupidez vigorou. E, agora, alguém que queira segui-la perdeu a possibilidade de raciocinar dentro da língua, de imbuir-se no espírito da língua, e tem de consultar sempre os ditames das mesmas “autoridades” sobre como se deve escrever. É tudo muito ridículo. Um escritor tem de consultar esse tal de VOLP para saber se hifeniza ou não um substantivo composto, para saber se a mente caótica dos especialistas o considerou substantivo, “expressão com valor de substantivo”, ou alguma locução. A ambiguidade intrincada e ilógica dos critérios resultou em não haver mais critérios, apenas determinações. Diante desta lista infinita de exceções arbitrárias, ao menos, pode se extrair uma lição: numa língua variada e viva como o português, a mera ideia de qualquer acordo deveria constranger.

O atributo que se tornou mais característico…

O atributo que se tornou mais característico do português escrito é a utilização apurada dos pronomes, o que já não se vê no português falado, salvo em algumas poucas regiões. Tal domínio, sozinho, pode transformar um texto canhestro em elegante, algo ostensivamente perceptível em traduções. O tradutor inabilidoso, o escritor inabilidoso, não conseguem se valer dos pronomes para dotar os períodos da concisão e do estilo possibilitados pelo idioma, e o resultado é que um discurso gramaticalmente correto, uma tradução semanticamente precisa, soem como mal escritos em português. Talvez, não haja outro elemento da técnica que transmita mais inteligência a um texto, nem outro elemento sobre o qual o estudo dos clássicos mais tem a instruir.

O que há de mais divertido na escrita

O que há de mais divertido na escrita é a possibilidade de individualizar completamente o processo, de maneira a fazer com que o elemento subjetivo atue como potencializador. Na maioria das ocupações, isso não é possível, e a eficácia do processo costuma demandar uma execução sequencial objetiva, algo que, com o tempo, tende a desestimular. Mas o escritor pode muito bem habituar-se a passar um café, ou acender um cigarro nos momentos anteriores ao trabalho, e presenciar, efetivamente, que ao fazê-lo as ideias começam a se mover. No seu processo criativo, há lugar para todas as suas manias, e isso produz uma enorme satisfação.

O pudor linguístico e o pudor literário

O pudor linguístico e o pudor literário são coisas diferentes, embora, superficialmente, possam se confundir. Mas quando se analisa bem, percebe-se que há autores que possuem uma forte manifestação do primeiro, do segundo, de ambos ou de nenhum. E em cada caso específico, muito do autor se revela pelo havê-los ou não. Tomando a literatura como um todo que abrange bons e péssimos autores, o mais comum é que a falta de pudor literário seja evidência de falta de cultura; já quanto ao pudor linguístico, o mesmo não se pode dizer. O que se diz e o que se representa são coisas distintas, sendo a linguagem mero instrumento deste último, que pode ser empregado com maior ou menor intensidade, a depender da necessidade e da intenção. Linguisticamente, há impulsos que pedem expressões extremadas; do contrário, não se alcançará uma justa representação. Mas o íntimo de toda obra é anterior à linguagem, e é somente nele que se pode medir o grau de refinamento de um autor.