Cioran, em entrevista a Michael Jakob…

Cioran, em entrevista a Michael Jakob:

M. J. : Aviez-vous décidé avant votre arrivée en France de ne pas travailler dans ce pays non plus ?

C. : Oui, c’est d’une façon ultra-lucide que j’ai compris qu’il faut accepter n’importe quelle humiliation ou souffrance pour se refuser à exercer un métier, à faire des choses qu’on n’aime pas et qu’on ne peut pas aimer, à exercer tout travail impersonnel. Seul j’aurais accepté un travail physique. J’aurais accepté de balayer les rues, n’importe quoi, mais pas d’écrire, de faire du journalisme ! Il fallait tout faire pour ne pas gagner sa vie. Pour être libre il faut supporter n’importe quelle humiliation et c’était presque le programme de ma vie.

Liberdade e humilhação! Talvez não haja palavras tão próximas. Por tal resposta, vê-se claramente o sentimento que pulsa num escritor verdadeiro. E este, queira ou não, não fará muito além de carregar uma vida que, para os outros, seria impensável. Não existe essa coisa de reconhecimento nas letras. O sujeito dedica a vida à construção de uma obra, financeiramente se torna uma subpessoa, persevera contra tudo, renuncia a todo o resto — e, ainda assim, tem de torcer para que permaneça na paz do anonimato, para que não seja jamais lido. Quando não dá essa sorte, é invejado pelos pares e insultado pelo primeiro imbecil. No fim de tudo, porém, vale a pena, porque o escritor que o aceita, em verdade, opta por uma vida autêntica, e pode se orgulhar de tê-la sustentado sem se trair.

Quando Nabokov discorre sobre suas borboletas…

Quando Nabokov discorre sobre suas borboletas, elas se tornam interessantes mesmo para aquele que as despreza. Isso porque Nabokov, para além de ser um exímio escritor, quando discorre sobre borboletas, discorre sobre algo que o absorve, discorre entusiasticamente, fazendo com que ao menos parte deste grande entusiasmo se irradie para o leitor. Com tal exemplo, fica fácil perceber que a literatura possibilita leituras improváveis, imprevistas, até impossíveis, desde que o autor seja autêntico, e trate de assuntos que realmente o interessam — agindo como um anfitrião que, num ato de boa-fé, expõe ao visitante aquilo que de mais valioso julga possuir. Talvez o efeito mais evidente de um grande escritor seja justamente este: ele estimula, ainda que à força, o interesse no leitor.

É tão libertador quanto impopular rejeitar…

É tão libertador quanto impopular rejeitar todos os rótulos, não se aferrar a nada, permitir-se dizer sempre aquilo que se quer. Filosofar sem o título de filósofo, fazer versos sem o título de poeta, escrever sem angariar nunca o título de escritor. Assim é possível fazer tudo isso de maneira autêntica, isto é, empregando meios de expressão autênticos na tentativa de responder os problemas que a experiência estipulou. Título nenhum dará gratificação semelhante a esta, de saber-se, de sentir-se a empregar o tempo em questões de importância pessoal. E se nada resultar do esforço, restará ao menos a sensação reconfortante de que a atenção foi direcionada às questões que a vida prescreveu.

“Sou filósofo; faço filosofia”

“Sou filósofo; faço filosofia” — diz o construtor de castelos imaginários, tal como diz aquele que brinca de criar, ordenar e adulterar palavras: “Sou escritor; faço literatura”. E embora ambos, talvez, sintam-se justificados pelo atributo que o ofício lhes confere, a verdade é que nada daquilo que produzem possui sentido existencial. Notá-lo parece bobagem, mas os anos passam e a vida pressiona por uma verdadeira justificação. O filósofo, o escritor, não podem encontrá-la no passado, por terem-no dedicado a motivações exteriores, descoladas de si. Então se arrependem; porventura ainda com tempo para redimi-lo, mas já tendo deixado a influência e o exemplo prejudiciais.