É um ato quase heroico este de dedicar…

É um ato quase heroico este de dedicar à literatura as últimas horas de um dia extenuante, quando corpo e mente parecem não suportar esforço adicional. É mesmo o diabo, como uma vez desabafara Carpeaux. E mediante outro desabafo, o de Ferreira de Castro, percebe-se que a situação nunca toma outra forma senão a de luta duríssima: mesmo o hábito não parece forte o suficiente para evitar aqueles dias em que se sucumbe ao cansaço, em que não se consegue pensar, e não se consegue escrever. Ah, quão mais fácil seria a vida sem duas ocupações! E, ainda assim, é essa a sorte da maioria, e foi em semelhantes condições que o dever venceu a natureza e produziu boa parte do melhor que a literatura tem a nos oferecer.

O jovem brasileiro que se incline à literatura…

O jovem brasileiro que se incline à literatura possui uma vantagem para escolher se segue ou não a sua disposição natural. Esta é a de se desenhar claríssimo o futuro que lhe aguardará caso opte por segui-la. A ilusão é-lhe impossível. Basta vasculhar alguns diários ou cartas de escritores do passado. Ou então refletir se há, vivo, algum exemplo de “sucesso”, de “reconhecimento” que lhe poderia servir de meta. Não há nenhum. O candidato a escritor, se refletir um pouco, concluirá que não inveja a situação de nenhum outro escritor de seu país. Daí que chegará facilmente à questão fundamental, que talvez fique encoberta para jovens de outras nacionalidades: é possível imaginar outra vida? seria tolerável privar-se de escrever e exercer outra ocupação? Pensando nisto, poderá escolher, pelos motivos certos, a vida que deseja para si.

É uma noção um tanto besta esta…

É uma noção um tanto besta esta de que, a cada novo poema, o autor tem de “inventar”. E vai associada a esta outra de que o maior poeta é aquele que executou o maior número de fórmulas, que abarcou o maior número de possibilidades construtivas, que, enfim, “não se repetiu”. É por isso que os manuais de versificação, após determinado momento, começam a cansar. O mesmo se dá com os tratados de estilística. Há um ponto em que o essencial parece há muito ultrapassado, e as linhas passam a versar sobre o irrelevante. O estudante fica com a sensação de que o seu nobre interesse se rebaixa, e a própria arte é coisa de pequeno valor.

Há acadêmicos que não consideram…

Há acadêmicos que não consideram Farias Brito filósofo; há literatos que consideram Lima Barreto escritor menor. E, no entanto, é possível ler a obra de ambos com lágrimas nos olhos. Isolados os textos, tornados objetos de análise técnico-estrutural, desaparece grande parte de sua significação. Devia ser um tanto óbvio, mas há sempre aqueles que ignoram a dimensão que a pessoa do autor pode dar à sua obra. Talvez seja consequência da modernidade. E o resultado é muito simples: é ignorá-lo e não haverá capacidade de discernir o sincero do dissimulado, a autenticidade da afetação; o texto não passará de um amontoado de palavras; a profundidade do discurso nunca se poderá captar. Não haverá diferença, afinal, entre ler uma história em quadrinhos e ler um Osamu Dazai.