Embora não seja possível dizer que haja algo como o método de narrativa ideal, admira ver o autor que intercala sons e imagens, ações e pensamentos, como que estimulando todo o nosso aparato imaginativo. Tal balanço confere o mais das vezes uma dinâmica estimulante às linhas que lemos, e parece grande parte dos efeitos da obra derivarem destas variações que tornam as singularidades mais salientes. A uma cena estática, descritiva, segue-se uma ação repentina, que desemboca em reflexões e assim por diante; quer dizer: cada passagem acaba realçada em contraste com a anterior e com a seguinte; e, talvez, seja isso algo positivo para o conjunto.
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O uso da tinta e do papel
É com grande entusiasmo que leio notas de escritores justificando, neste século, o uso da tinta e do papel. São os argumentos referentes à produtividade que mais me impressionam: para muitos, o ritmo cerebral parece ajustar-se melhor à escrita manual. Espanto-me por notar que, durante séculos, exatamente assim se fez literatura, por este método que é como avesso ao meu modo de escrever. Não há dúvida que há um certo charme, um certo encanto em ver a tinta no papel, em ver na caligrafia mais um traço da singularidade do autor, em ver a cadência natural da escrita à mão, pela qual lentamente as letras tomam forma, a ideia transforma-se em palavras e a criação mental concretiza-se materialmente. É tudo isso estimulante. Porém… que dizer? Afirmam tais escritores que a morosidade do método favorece a reflexão justa e, portanto, saem as palavras mais precisas. De minha parte, não conheço a escrita senão como um processo muito mais de destruição e reconstrução de frases: a mente, auxiliada pelo velocíssimo bater dos dedos nas teclas, jorra ideias desordenadamente na tela; o cérebro então raciocina e vai ordenando e modelando tais ideias, que vão sendo reescritas de maneira mais adequada. A cada duas frases, uma é completamente apagada e melhor conformada em nova tentativa; no fim do parágrafo, novas correções… Então fico aqui a imaginar que faria eu caso tivesse de adaptar-me ao papel e à tinta: e parece-me, mais do que nunca, justificada a sempre acesa fogueira de Kafka.
O desígnio da “grande obra”
Goethe, nas Conversações, lamenta o ter-se deixado seduzir pelo desígnio da “grande obra”. Diz saber o quanto ele o prejudicou e se arrepende de ter-se permitido bloquear a mente para suas valorosas manifestações espontâneas que, embora reclamassem atenção, tiveram de ser descartadas em prol do objetivo maior. Compreensível… não é difícil admitir que algo se perca devido a essa necessidade de concentração do esforço que é imperiosa para a criação de uma “obra de vulto”, como diz Goethe. Mas talvez seja um preço justo, como talvez seja arriscado apostar todas as fichas em uma obra fragmentária, de inspiração ocasional. Muito de Goethe deriva do Fausto, e se algo perdeu ele com criá-lo, ora, ganhou-o afinal! É muito difícil aderir integralmente à recomendação de evitar as “grandes obras” quando vemos que delas proveio o melhor de parte considerável dos grandes autores. Se, por um lado, é justíssima a observação de que são elas perigosas, e de que talvez não sejam indicadas à maioria dos artistas, por outro lado nalguns casos parece extremamente proveitosa a canalização dos esforços para uma única finalidade.
Após entranhado o costume do período conciso…
Após entranhado o costume do período conciso, direto e objetivo, tão em voga nestes dias, que o têm como quase exigência do estilo, é um prazer o mergulhar esporádico na passada de outros tempos, lenta, cadenciada, parecendo evidenciar que não se faz arte com pressa, que a atenção pede detalhes, adiciona nuances, singulariza enquanto se vai estendendo. Imergir neste vagar é como que fugir da banalidade moderna, e a medida que os períodos progridem ficamos com a sensação de uma profundidade que escapa a este tempo, que perdeu-se em prioridades fúteis e transformou-se em inimigo daquele estado tranquilo que acentua a tendência humana para a contemplação.