O escritor profissional tem obrigação de ter sempre em mãos uma caneta e um bloco de notas, — acordado ou dormindo, — sejam físicos ou virtuais. Do contrário, perderá grande parte de suas ideias, prejudicará seu trabalho e não será digno do epíteto profissional. Histórias tomam corpo, soluções são encontradas quando o raciocínio consciente descansa e o cérebro trabalha silencioso. Inopinada embora previsivelmente, ele se manifesta, então é dever do profissional registrar-lhe de imediato a manifestação, senão tende a perdê-la. Prezando pelo próprio trabalho, o escritor nunca se dará o luxo de desperdiçar seus momentos de inspiração.
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Erigir uma obra fragmentária
Ganha muito o pensador ao optar, como fizeram Nietzsche e Cioran, por erigir uma obra fragmentária. Largando mão do delírio presunçoso e contraprodutivo da unidade alcançável, isto é, da perfeição supostamente alcançável, o pensador pode concentrar-se em conferir precisão e potência a pequenos fragmentos. Além disso, é indiscutível a superioridade de uma coletânea de aforismos a um ensaio qualquer: deste quase nunca justifica-se a releitura; daquela, a inata multiplicidade torna impossível a assimilação completa de uma única vez. Mais ainda: construir em fragmentos torna possível o assentamento preciso dos díspares e complicados movimentos mentais, quando desenvolver e aprofundar um raciocínio unitário impõe certamente um limite — ou seja, obriga a mente a dispensar grande parte de suas manifestações.
A maneira de Nelson construir prosa
É curiosa a maneira de Nelson construir prosa. Seja nos romances, nos contos ou mesmo nas crônicas, é claríssima a sua obsessão em enquadrar o texto numa estética predefinida — age em prosa como fazem em verso os poetas. O andamento de suas narrativas segue quase sempre um protocolo, e o resultado é um estilo pronunciado e inconfundível. Houve o tempo em que eu julgava a padronização essencial para o grande estilo. Hoje, enxergo um pouco diferente. Admiro construções regulares, mas creio preferir variedade: velocidade num dia; noutro vagar, lenta cadência, vírgulas em vez de pontos finais. Estilos, formatos, compassos, e não dinamismo estático ou lentidão terminante. O difícil, contudo, é identificar mestres em múltiplos estilos, capazes de satisfazer numa mesma obra os anseios do habituado a alentar-se trocando de prateleira.
Uma peça e sessenta contos à força
Saíram-me uma peça e sessenta contos à força. Quanto à peça, espero ser-me a única, e não tenciono retornar a esse formato. Já quanto aos contos… é impressionante: está muito claro que o formato aborrece-me, contudo estou ciente que o trabalho não acabou; sinto-me em dívida, psicologicamente obrigado a terminar o que comecei, e é certo que não chegou o momento de brindar-me com o ponto final. Uma peça e sessenta contos à força: impelido pela consciência de que há temas sobre os quais não posso deixar de escrever.