O difícil, em arte, é aproveitar inteligentemente as manifestações espontâneas que surgem durante o processo, inserindo-as na estrutura predefinida sem prejudicar o conjunto. Com frequência, os pontos mais altos de uma obra são oriundos de lampejos inesperados que o autor soube aproveitar. O todo, é certo, carece de ordem; e ordem não se faz de uma centelha que brota subitamente no espírito. Mas o artista, se surpreendido da ideia adventícia, fará muito bem transferindo-lhe este efeito surpresa para a obra. A arte ganhará.
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Um exercício contínuo de paciência
A poesia, essa arte terrivelmente difícil, é um exercício contínuo de paciência. Não adianta: a pressa, em poesia, é sempre o erro. É um verdadeiro transtorno saber que, por um lado, é preciso se aproveitar das manifestações espontâneas, que brotam como rajadas e conferem grande potência aos versos; mas, por outro, é preciso deixar que os versos esfriem, solidifiquem, e então esmerá-los calmamente, ajustando o ritmo, trocando palavras, apurando a expressão. Dói sobremaneira a punhalada que é notar uma mácula originária da afobação. Todo um exaustivo trabalho, pois, conspurcado quando já não é possível repará-lo. Dele, ao artista, ficará somente a falha, somente a frustração. Por isso o labor poético é um exercício de autocontrole, de paciência, em que o poeta deve atuar também como estrategista, liberando e contendo-lhe os impulsos, suspeitando de si mesmo ainda quando concluirá que não havia de fazê-lo. E, ainda assim, não será suficiente…
Todo artista possui inclinações e deficiências
Todo artista possui inclinações e deficiências. Há temas que, por uma disposição inata, saem-lhe com naturalidade e brilho; já outros, apresentam-lhe dificuldades. Por isso, em primeiro lugar, é importante que o artista seja capaz de identificá-los e classificá-los. Em seguida, é necessário empenho para desenvolver-lhe justamente as debilidades, e isso se dá exercitando a representação daquilo que lhe é oposto, explorando formas, arriscando. Em arte, é certo, há escolhas; mas também há fraquezas, e estas, se não assumidas, a seu modo conseguirão sempre se entranhar como defeitos evidentes. Completo será, assim, o artista que através do esforço converter em força aquilo que lhe não é natural.
O artista bon-vivant
Diz Burckhardt, em minha tradução inglesa:
Indeed, without this degree of force of character, the man of the most brilliant “talent” is either a fool or a knave. All great masters have, first and foremost, learned, and never ceased to learn, and to learn requires very great resolution when a man has once reached heights of greatness and can create easily and brilliantly. Further, every later stage is achieved only by a terrible struggle with the fresh tasks they set themselves.
“Force of character”, “never ceased to learn”, “terrible struggle”… aí está uma visão sensata do estado de espírito que produz grandes obras. É realmente uma piada essa visão romantizada do artista bon-vivant, tão disseminada nestes dias. Segundo ela, o exercício da arte é um prazer, um divertimento para os momentos de ócio. Um artista desta estirpe é, se muito, medíocre. Diante da postura de um artista sério, mesmo a tão falada “busca pela beleza” parece de uma futilidade afrontosa. Toda essa idealização do artista e da arte não parece definir muito bem a motivação real daquele que dedica um esforço descomunal, que molda a existência inteira em torno da própria ocupação, nunca relaxando, nunca satisfeito, na contramão daquilo que lhe é conveniente. Burckhardt, como poucos, apresenta-nos uma visão prudente daquilo que representa a verdadeira grandeza.