Nietzsche disse, em algum lugar, que a maestria numa ocupação é condicionada ao ponto de partida do indivíduo, mais especificamente, a quanto este recebe de legado. Portanto ao filho desejoso de eminência, o recomendado é seguir-lhe os passos do pai. Há nisto uma boa dose de verdade; mas, como sempre, as exceções são mais curiosas que a regra. Que maravilhoso senso de ironia do destino em colocando um Nietzsche como filho de um pastor protestante! e um Cioran, a crescer filho de um padre! Destes e de outros exemplos notamos que a eminência, além do aprimoramento do legado, também aceita a ruptura violenta como ponto de partida.
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O escritor pode dormir até no chão…
Foi Faulkner, creio, quem disse que o escritor pode dormir até no chão, mas precisa de um lugar decente para trabalhar. A ideia é interessante em muitos aspectos. Primeiramente, por evidenciar necessária uma seriedade no lidar com o próprio trabalho; caso contrário, dificilmente se fará algo de valor. Ter um local “decente” para o trabalho, ainda que não haja condições decentes no restante da vida, é uma mostra de prioridade, de respeito pela própria ocupação. Psicologicamente, é saber que há o momento mais importante do dia, o momento para o qual a rotina é moldada e os esforços devem convergir. Com isso, vários problemas são superados. Há outro aspecto digno de nota: o conforto de um local “decente” confrontado com o “dormir no chão” é a satisfação para alguém que, acostumado a condições inadequadas, acomoda-se num ambiente propício e estimulante. Uma cadeira razoável, uma mesa, luz e silêncio; um horário definido e um compromisso gravado na pedra — assim, soterra-se as desculpas oriundas da fraqueza mental.
Graduações de manifestações mentais
Há vezes que a ideia pouco vale — mas deve ser anotada; — em reflexão ulterior, porém, é justo descartá-la. Outras vezes a ideia parece fraca, mas posteriormente, reexaminada com alento renovado, tira-se-lhe algo valioso, e o fraco demonstra-se centelha importante. Outras a mente manifesta-se com clareza, e a ideia parece justa — destas extrai-se o grosso de uma obra. E outras ainda, a mente manifesta-se com tamanho ímpeto que o artista, refreando-a, deixando de imediatamente debruçar-se sobre quanto ela tenta dizer-lhe, comete um crime contra si mesmo, e desperdiça o melhor que pode extrair de suas manifestações mentais. Não basta atenção e método; para o aproveitamento máximo da mente, é preciso uma disposição que contraria o conveniente.
Não importa o quanto se idealize o estilo e a forma…
Não importa o quanto se idealize o estilo e a forma, ambos carecem da execução para solidificarem e alcançarem uma unidade autêntica. Executada, ou melhor, durante a tentativa de execução, a ideia torna-se mais clara e o artista evolve-a até que ela se lhe encaixe na intenção expressiva. Os lampejos espontâneos que surgem no ato de realização artística, embora não sirvam de alicerce, são frequentemente quanto abrilhanta e faz com que uma obra mereça o adjunto de arte.