Experimentações diversas têm-me induzido a pensar que a melhor narrativa exige estruturação metódica. É verdade: faz-se prosa de mente livre, deixando-a fluir, com resultados interessantes. Contudo o efeito de uma narrativa é quase sempre mais fraco se lhe notamos grandes lapsos estruturais. Por que é tíbia? por que não convence? Frequentemente encontramos a resposta em seu encadeamento, na maneira como está organizada e progride. Da parte do artista, parece interessante sentar-se e construir com liberdade total, desprendido de amarras estruturais. Entretanto, parece haver aí um engodo. A grande arte aparenta exigir um artista onisciente que, a cada passo, esforça-se por simular a naturalidade do que está a criar.
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Os homens das letras
O determinismo é repugnante. Em todas as suas inumeráveis manifestações, sempre se apresenta em aspecto medíocre e infame. Entretanto, há coisas que causam espanto. Por exemplo, os homens das letras. Vislumbrar toda a conjuntura que enfrentam, e ainda assim dedicam uma vida à construção de uma obra… Privações, renúncias, angústias, humilhações… E lá estão eles, superando obstáculos, com uma determinação injustificável, diante de um horizonte isento de qualquer compensação, trabalhando dia após dia. A explicação só reside numa espécie de dever, incompreensível para a maioria e que excede o senso racional. A motivação individual pode muito bem conduzir a insanidades, desde que se abstenha do uso da razão. Difícil não dizer destes homens estimulados por algo que lhes extrapola…
Um roteiro cinematográfico vale-se pela estrutura
De forma intempestiva, ponho-me novamente a escrever roteiros cinematográficos. O trabalho do momento, que começava a engatinhar, é interrompido. E não sei o que sentir. Perspectivas, tenho poucas, seja lá o que esteja criando. Mas a facilidade em cuspir páginas de roteiro salta aos olhos quando comparada à agonia da criação literária. O roteirista vê-lhe o trabalho avançar, todos os dias, e encontra manifesta satisfação. Um roteiro, a bem dizer, vale-se pela estrutura, pela eficácia na distribuição das cenas dentro de um formato predefinido e pela força na exposição de um arco dramático. O roteirista debruça-se na demarcação estrutural do texto: define o conflito, sua progressão ao longo da trama e seu desenlace; então o distribui em cenas, com posicionamento e extensão em conformidade com o arco dramático e o formato da obra. Depois é só formalizar ou, melhor dizendo, transformar o diagrama em texto. Com personagens bem definidos, os diálogos brotam com facilidade espantosa, em infinitas variações. Decerto, são eles em grande medida adaptáveis, substituíveis: o roteiro, que não é senão o esboço de uma obra, vale-se pelo próprio esboço. E eu, de artista, torno à função de diagramador.
Mero exercício de transcrição
A sensação de ser capaz de escrever infinitas páginas, somente transcrevendo a guerra psicológica permanente e seus capítulos intermináveis. Conflito implacável, aflição contínua, tranquilidade que quase nunca vem… Palavras do mestre oportunamente relembradas: “Toda a minha vida falei calando-me e vivi em mim mesmo tragédias inteiras sem pronunciar uma palavra”.
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